O Copom piscou?

Fernando Dantas

26 de março de 2010 | 12h49

Talvez nunca antes uma ata do Copom tenha provocado tanto estranhamento quanto a que foi divulgada nesta semana. O problema não foi o de que as explicações para o voto da maioria de cinco, que manteve a Selic inalterada em março, tenham sido pouco convincentes. Na verdade, a ata pareceu – bizarramente – uma convincente justificativa para o voto dos três derrotados, que queriam um aumento de 0,50 pontos porcentuais na Selic já nessa última reunião.

Num momento em que o presidente do BC, Henrique Meirelles, está prestes a tomar a sua decisão sobre sair ou não do posto para reiniciar a sua carreira política, o peso dessa ata de coerência fugidia se torna maior.

Todo mundo sabe que a orientação econômica geral do governo Lula vem tomando um rumo mais heterodoxo (embora sem nenhum radicalismo até agora) nos últimos dois ou três anos. Nesse contexto, o BC é visto como o último bastião da ortodoxia, até pelo perfil e pelo desempenho de Meirelles.

Mas o que talvez seja um pouco menos percebido é que o próprio BC vem passando por uma sutil mudança. Ninguém nunca disse isso claramente, mas nas substituições de diretoria que ocorreram mais recentemente parece haver um veto subentendido àquele típico “economista de mercado”, que arquetipicamente (mas não necessariamente) é formado pela PUC-Rio, o atual bastião da ortodoxia brasileira. Esse “tipo” de economista deu a tônica ao Copom desde o lançamento do sistema de metas de inflação em 1999. A lista é longa (não necessariamente, friso de novo, todos da PUC): Arminio Fraga, Ilan Goldfajn, Afonso Bevilaqua, Eduardo Loyo, Alexandre Schwartsman, Rodrigo Azevedo, Beny Parnes e talvez eu esteja esquecendo outros nomes. É interessante notar que, nessa turma, há grandes variações na intensidade das inclinações conservadoras. Está longe de ser um grupo homogeneamente “falcão”.  

De qualquer forma, na situação atual, se o diretor Mario Mesquita sair de fato do BC, como se lê em matérias em “off” na imprensa, é possível dizer que, dependendo de quem o substitua, aquele perfil ortodoxo que foi a tônica do Copom desde o início do sistema de metas ficará bem esmaecido. E eu não estou falando de capacitação técnica para a função, que o nome mais cotado para novo presidente, Alexandre Tombini, tem de sobra, como todos sabem.

É preciso dizer aqui que um Copom menos “falcão” não é necessariamente ruim, embora sempre seja bom que o BC tenha uma postura mais conservadora do que o resto do governo e da sociedade. E, com certeza, o BC atual – e mesmo com a saída de Mesquita – ainda será bem mais ortodoxo do que a Fazenda e os brasileiros em geral. A discussão sobre o nível ideal de conservadorismo de um BC é complexa, e a melhor maneira de cada um formar uma opinião sobre o tema é acompanhar o eterno debate entre ortodoxos e desenvolvimentistas.

O problema dessa última ata do Copom, porém, é que ela não vendeu a visão “pombo” de mundo, que prevaleceu na hora da decisão. E isso estimulou o vírus da dúvida sobre uma possível (e nova) influência política no BC. O que seria ruim, independentemente dos méritos da ortodoxia e da heterodoxia.

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