O crescimento dos “antipetistas puros”

Pesquisa, que ainda vem sendo trabalhada, dos cientistas políticos Cesar Zucco Jr. e David Samuels mostra crescimento no eleitorado do grupo que não gosta do PT, mas sem simpatia específica por nenhum outro partido.

Fernando Dantas

07 de outubro de 2015 | 17h24

Há muito tempo que se sabe que o PT é o partido nacional que tem maior número de simpatizantes, isto é, pessoas que, para além do voto, respondem em pesquisas de opinião que apoiam o partido. Em trabalho acadêmico (que ainda está sendo aprimorado), os cientistas políticos Cesar Zucco Jr., da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV-Rio), e David Samuels, da Universidade de Minnesota, detectaram que o segundo maior grupo do eleitorado brasileiro (em 2014) que de alguma forma reage ao sistema partidário é o dos “antipetistas puros”, isto é, aquelas pessoas que não apoiam nenhum partido, mas declaram-se contrárias ao PT (o partido no qual “nunca votariam” ou de que “não gostam”).

Do final da década de 90 até hoje, o eleitorado petista (pessoas que se declaram simpatizantes do partido) oscilou. Em 1997, eram 14,18% do eleitorado, proporção que subiu para 23,28% em 2006 e caiu para 15,95% em 2014. Já os antipetistas puros subiram entre aqueles três anos, registrando respectivamente 7,49%, 9,68% e 11,44%. A diferença entre petistas e antipetistas puros subiu de 6,69 pontos porcentuais (pp) em 1997 para 13,6 pp em 2006, e caiu para apenas 4,51 pp em 2014.

Os antipetistas puros eram bem mais numerosos do que os partidários do PSDB em 2014, que correspondiam a 4,29% do eleitorado (com queda em relação a 1997 e 2006). Ainda assim, os simpatizantes dos tucanos eram o terceiro maior grupo dentre os eleitores que de alguma forma reagiam ao sistema partidário. Em 2014, 59,36% do eleitorado não expressava nenhuma simpatia por qualquer partido nem antipatia, definida como não votar de jeito nenhum em determinado partido ou dele não gostar. O número é maior do que em 1997 (48,08%) e 2006 (43,22%).

Zucco Jr. faz uma série de ressalvas aos resultados até o momento da sua pesquisa com Samuels, que ainda é um “work in progress”. O principal problema é que o trabalho utilizou pesquisas de 1997 e 2006 que não foram desenhadas tendo como uma de suas preocupações específicas investigar o antipetismo. As pesquisas de 1997 e 2006 foram realizadas pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT. Zucco Jr. esteve envolvido na pesquisa de 2014. As pesquisas foram realizadas a uma distância temporal razoável (e diferente entre elas) das eleições presidenciais, e há problemas em relação à forma como foi formulada a pergunta sobre o partido de que não se gosta.

Além disso, Zucco Jr. diz que o fenômeno do antipetismo pode estar mudando muito rapidamente, e “muita água já passou debaixo da ponte” desde que a pesquisa de 2014 foi realizada no primeiro semestre daquele ano. Ele nota que é difícil separar o estrutural do conjuntural. Feitas todas essas ressalvas, o cientista político indica algumas possibilidades apontadas pelo trabalho e desenvolve algumas questões e reflexões sobre o antipetismo crescente.

É importante ressaltar que ele se refere sempre ao que chama de “antipetistas puros”, isto é, que desgostam do PT e não manifestam preferência por nenhum outro partido. Se forem incluídas as pessoas que têm outra preferência partidária e se dizem contrárias ao PT, a proporção é aproximadamente estável entre as três datas, e até levemente cadente: 20,05% em 1997, 19,5% em 2006 e 18,08% em 2014.

Ele observa que o perfil médio dos antipetistas puros variou nas três pesquisas. Em 1997, eles tinham medo de Lula, o que estava ligado ao risco de o País degringolar caso o líder petista se tornasse presidente. Eram tipicamente pessoas temerosas do poder de mobilização do PT, da agitação sindical, contrários à “bagunça” e favoráveis à ordem. Mas não eram particularmente conservadoras em termos de valores (questões como aborto) quando comparados à média brasileira.

Em 2006, a característica que mais ressaltava dos antipetistas puros era a rejeição à corrupção (o Mensalão estourou em 2005). Já em 2014, identificou-se um perfil médio com menos crença na democracia (a simpatia com o governo militar, por exemplo, aparece de forma mais significativa

) e fortemente hostil a políticas públicas identificadas com o PT, como Bolsa-Família, cotas, Minha Casa Minha Vida e mais médicos. Esta última característica, porém, não é comparável, pois não se investigou isto nas pesquisas de 1997 e 2006.

Zucco Jr. alerta que também essas características médias devem ser analisadas com cuidado, porque é bem possível que os antipetistas puros sejam um grupo heterogêneo, com parte das pessoas críticas ao PT de uma perspectiva à esquerda do partido e outra parte com uma perspectiva à direita (que ele acredita ser maior, mas só como opinião pessoal).

Há algumas características curiosas do grupo antipetista puro em 2014. Em questões sociais e de valores, como aborto e direitos de homossexuais, eles não são particularmente conservadores dentro do universo do eleitorado. Apesar de mais radicais que os simpatizantes do PSDB em relação aos programas típicos do PT, os antipetistas estão menos preocupados com os escândalos do que os tucanos, e mais preocupados do que estes com a situação da economia.

Os antipetistas puros tendem a ser em média mais ricos e mais brancos que a média da população e têm uma visão mais negativa do PT do que de Dilma e Lula. Em termos de uma escala de avaliação positiva, o grupo aponta em ordem decrescente Marina Silva, Eduardo Campos (que estava vivo quando a pesquisa foi feita), Aécio Neves, Lula, PSDB, Dilma e, por último, o PT.

Uma das grandes questões, segundo Zucco Jr. é por que o contingente antipetista puro cresce e não é capturado por nenhum outro partido, como o PSDB. Uma das suas hipóteses é que falta aos partidos, com exceção do PT, o que chama de capacidade organizacional – isto é, recrutar simpatizantes a partir de organizações como sindicatos, associação de moradores e grupos em geral da sociedade civil organizada. (fernando.dantas@estado.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 7/10/15, terça-feira.

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