O custo da “desbolsonarização”

Presidente faz de tudo para estancar sangria da sua competitividade eleitoral em 2022. Se não conseguir, pode no desespero reforçar ações antidemocráticas e derivar para uma dose de populismo econômico que pode fazer estragos fiscais sérios.

Fernando Dantas

03 de agosto de 2021 | 11h32

O celebrado gestor Luís Stuhlberger, do Fundo Verde, disse no podcast da jornalista Malu Gaspar que a recuperação da economia e a o avanço da vacinação devem fazer com que Jair Bolsonaro volte a ser competitivo nas eleições de 2022.

Essa é provavelmente uma das questões mais importantes do atual momento histórico brasileiro. Pesquisa do Atlas Político recém-divulgada mostra o atual presidente perdendo para os seus principais adversários – Lula, Ciro, Haddad e João Doria – num eventual segundo turno das eleições de 2022.

No caso de Lula, a vitória sobre Bolsonaro no segundo turno seria de 49,2% contra 38,1%. A diferença de 11,1 pontos porcentuais (pp) representa um aumento ante a pesquisa anterior do Atlas Político, de maio, na qual Lula ganhava com 4,7pp de vantagem.

Bolsonaro, embora alardeie não acreditar em pesquisas, está visivelmente preocupado com a desidratação da sua popularidade.

Como mostra reportagem de 2/8/21 de Adriana Fernandes, do Estadão, “o presidente vem montando um cardápio de medidas econômicas para evitar maior perda de popularidade”. O menu, segundo a reportagem, inclui a elevação do benefício médio do Bolsa-Família de R$ 190 para R$ 300, desonerações, reajuste do funcionalismo, entre outras medidas.

Afora o Bolsa-Família, uma alavanca eleitoral testada e reconhecida, que mexe com o bolso de muitos milhões de eleitores, as outras medidas parecem uma lista de favores para públicos específicos, sem capacidade de catapultar a popularidade presidencial.

Mesmo o aumento do Bolsa Família vem no vácuo do auxílio emergencial, que em 2020 pagou R$ 600 para muitas famílias e R$ 1,2 mil para um número menor, mas não desprezível, delas.

É possível que haja ocorrido uma “inflação” da expectativa dos pobres em relação a benefícios sociais. Dessa forma, não dá para descartar que os R$ 110 a mais de Bolsa-Família (ou R$ 300 para alguns milhões de beneficiários que serão incluídos no programa) não empolguem tanto a ponto de reverter votos em Lula, que é fortíssimo na parte mais baixa da pirâmide, para Bolsonaro.

Dessa forma, é difícil ver como a previsão de Stuhlberger se concretizaria sem uma vigorosa retomada da economia que conseguisse reverter muito rapidamente o enorme estrago provocado pela pandemia no mercado de trabalho.

Por mais que Paulo Guedes desmereça o IBGE, o fato é que os quase 15 milhões de desempregados da Pnad Contínua (PNADC) no primeiro trimestre seriam ainda mais numerosos se a força de trabalho (pessoas ocupadas e desocupadas) tivesse voltado ao padrão pré-pandemia. A força de trabalho no primeiro trimestre ainda mostra cerca de 4,5 milhões de pessoas a menos do que em igual período de 2019, no período pré-pandemia.

Para os muitos cidadãos brasileiros horrorizados com o governo Bolsonaro e seu contínuo flerte com ideias antidemocráticas ou a defesa escancarada da barbárie, o definhamento eleitoral do atual presidente é uma boa notícia.

Infelizmente, porém, a travessia até o momento em que o País talvez se livre de ter na presidência uma personalidade nefasta como Bolsonaro pode ser muito turbulenta.

Na área política, o desespero de eventualmente constatar que a retomada econômica não será suficiente para reeditar o clima nacional de 2018 – até porque toda a fantasia moralizadora que veio junto com a eleição de Bolsonaro foi devidamente destruída pelos muitos fatos escandalosos do seu governo – pode trazer radicalização antidemocrática por parte do presidente.

Um mote inicial já está sendo trabalhado por Bolsonaro e seus aliados, inclusive – para escândalo de quem entende a gravidade do fato – alguns auxiliares das Forças Armadas. Trata-se do voto impresso, uma aberração desnecessária num país que vem realizando eleições exemplares e limpas desde a redemocratização.

O truque antidemocrático contido na demanda pelo voto impresso é claríssimo. Se ele for aprovado, será a senha para perdedores pedirem incontáveis recontagens, tumultuando o bom funcionamento da democracia. Se a ideia for derrotada, será a justificativa para Bolsonaro alegar que a eleição de 2022 – caso ele perca – foi “fraudada”.

Se a eventual “desbolsonarização” do Brasil não será um processo indolor na parte política, o mesmo pode ser dito em relação à economia. Mas aqui o problema é mais complexo.

Como indica a matéria de Adriana Fernandes, no desespero de tentar recuperar popularidade, o presidente vai tentar distribuir “bondades”. É de se imaginar que, se as intenções de votos não vierem, essas bondades podem se multiplicar até se tornarem um sério estrago na política fiscal.

Antes mesmo que isso ocorra, o mercado vai antecipar as más consequências. E, do outro lado, Lula, o principal candidato a derrotar Bolsonaro – e o mesmo pode se dizer de Ciro – poderá, ao que indicam seus passos até aqui, atear ainda mais o pânico econômico, jogando as fichas no discurso populista para desestabilizar com mais força ainda o final do governo Bolsonaro.

A eventual débâcle do bolsonarismo no poder pode ser um espetáculo com um lado muito feio. Mas nem por isso menos necessário.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/8/2021, segunda-feira.