O descolamento vai durar?

Balbúrdia política do clã Bolsonaro não está afetando os mercados, que seguem de vento em popa. Isso vai durar?

Fernando Dantas

01 de novembro de 2019 | 18h52

A semana política foi um pandemônio particularmente intenso até para os padrões bolsonaristas. Idas e vinda na associação de Jair Bolsonaro a circunstâncias do assassinato de Marielle (nada de concreto contra o presidente até agora), a reação encolerizada do presidente à reportagem da TV Globo e a defesa do AI-5 por Eduardo, com clamor nacional de reprovação e recuo.

Quando se olha para o mercado financeiro, porém, a sensação é suíça.

A semana se encerra com bolsa em alta, dólar em baixa e juros futuros que despencam para níveis ainda mais baixos num território absolutamente inimaginável para o Brasil até há pouco tempo.

Descolamento entre a política e a economia?

A resposta óbvia é sim, numa perspectiva de curto prazo (ainda que a maré favorável externa seja também um elemento importante).

Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM, aponta em primeiro lugar que há elementos estritamente econômicos para o ciclo otimista do mercado: a combinação de queda sem precedentes de juros e a impressão de que desta vez a economia vai acelerar um pouquinho mais (embora os dados de emprego da PNDAC e da produção industrial da semana não tenham sido particularmente animadores).

De forma complementar ao comentário de Ribeiro, o analista político da consultoria Tendências, Rafael Cortez, observa que o mercado passou por um “aprendizado” (entre aspas mesmo, já que ele tem vários reparos ao que se aprendeu) de um “novo normal”.

Há uma política econômica sensata, uma ampliação do diálogo reformista e as turbulências políticas criadas pelo Executivo.

Nessa visão, a zoeira política só influencia a economia se afetar o trabalho de Guedes e o Legislativo. Como a governabilidade reformista saiu em boa parte das mãos do Executivo para o Congresso, mudou-se a dinâmica dos governos Dilma e Temer, quando a fragilização do presidente impactava diretamente a economia e seus indicadores.

Tanto Ribeiro como Cortez, entretanto, consideram que esse novo normal tem fragilidades relevantes em suas bases.

É verdade que o governo, bem ou mal, reorganizou sua agenda econômica com uma série de PECs e medidas legislativas a serem enviadas à Câmara e ao Senado.

Um primeiro problema, contudo, é que terá que se estabelecer hierarquia e cronograma nessa fieira de reformas, algo que o coreto bagunçado das relações entre Executivo e Legislativo no governo Bolsonaro não ajuda muito.

Reforma tributária, reforma administrativa, PEC emergencial etc. – como organizar esse enorme, complexo e contencioso fluxo? Até agora não se sabe.

Outra questão é que a tendência é de tudo ficar para 2020. Como se sabe, ano eleitoral não é o melhor momento para se discutir medidas que vão, no geral, na direção de restrição de direitos e aperto de cintos (e, no caso da tributária, de redivisão do bolo entre entes federativos famintos por recursos).

E não é só por ser ano eleitoral, acrescenta Ribeiro. Há sinais de que o Legislativo pode estar cansando da pauta de “maldades”, isto é, que afetem interesses, seja da população como um todo, como na Previdência, seja de grupos específicos.

Para o analista da MCM, os protestos no Chile podem estar colocando uma pulga atrás da orelha dos congressistas em relação às reformas liberais (neste ponto, Cortez tem uma visão diferente, como se verá adiante).

Ribeiro cita dois sinais recentes dessa “reform fatigue” no Congresso.

Um deles são declarações de Eduardo Braga, líder do PMDB no Senado, com restrições a mais “pacotes de maldades” na reforma administrativa. Outro foi o calor passado por Fabio Kanczuk na sabatina no Senado (ele foi aprovado para a diretoria do BC), durante a qual parlamentares sinalizaram que a queda dos juros ao tomador pode se tornar uma pré-condição para aprovação de novos diretores.

É nesse contexto mais amplo que tanto Ribeiro quanto Cortez apontam para aspectos deletérios, para a pauta econômica numa perspectiva de médio prazo, da radicalização constante promovida por Bolsonaro e seus filhos.

Com reformas mais difíceis de passar, em um ano eleitoral, a estratégia de atacar e dividir do presidente e sua família obviamente não ajuda a construir os consensos necessários. Ribeiro acrescenta que há doses extras de combustível à espera no duto para serem lançadas na fogueira política brasileira: um possível processo de cassação de mandato de Eduardo Bolsonaro e – em volume muito maior – a soltura de Lula.

Já Cortez vê uma “janela de governabilidade parlamentar” favorecendo o governo Bolsonaro, que, junto com seus filhos, faz tudo para encurtá-la criando conflitos políticos e institucionais a rodo.

Cortez também adiciona outro argumento importante sobre os danos do tumulto e da belicosidade da política bolsonarista: piora a percepção dos agentes econômicos, cria incerteza e pode ser um dos motivos porque a retomada em 2019 foi tão decepcionante.

O analista da Tendências detecta uma competição na centrodireita, que se acirra com o comportamento belicoso do Executivo. No momento, a janela de governabilidade parlamentar permite que a agenda reformista caminhe. Quando ela se fechar, porém, um governo Bolsonaro isolado das forças de centrodireita terá bem mais dificuldades de tocar a pauta econômica.

Uma possível faceta positiva, na visão de Cortez, é que a centrodireita vem tentando se rearticular e a plataforma reformista faz parte deste esforço. No Congresso, ele vê uma elite legislativa engajada nesse processo.

O tempo da política – Nesse sentido, o analista considera que o exemplo do Chile e da Argentina pode reforçar na centrodireita o sentimento de que é preciso unir as suas diversas forças num programa para evitar que o país escorregue para a total radicalização política. E esse programa incluiria a continuidade das reformas.

Seja como for, Cortez também enxerga, como Ribeiro, dificuldades grandes para que Executivo e Legislativo coordenem e deem agilidade à complexa e variada pauta de reformas daqui em diante.

No mínimo, as confusões bolsonaristas consomem o tempo da política, como o vai não vai da abortada nomeação de Eduardo para embaixador nos Estados Unidos e, agora, a possibilidade de processo de cassação do mandato do mesmo filho do presidente.

Para concluir, Ribeiro nota que o mercado pode até estar atento a todas as dificuldades descritas nessa coluna. No entanto, está corretamente posicionado para faturar com a maré positiva de curto prazo, enquanto os juros continuam caindo, a janela reformista no Legislativo está aberta e bons planos econômicos são apresentados.

O problema é o que vai acontecer se e quando a festa do descolamento entre política e economia acabar.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 01/11/19, sexta-feira.