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O diagnóstico da Oliver Wyman e do Insper

Marcos Lisboa, presidente do Insper, explica o que é o projeto Panorama Brasil, que junta a Oliver Wyman, consultoria global, e o Insper, instituição de ensino superior e pesquisa. Além disso, e separadamente da agenda Brasil, Lisboa fala de como vem conversando com políticos e técnicos envolvidos com várias candidaturas, com quais candidatos não se interessa em falar, e da necessidade de o País enfrentar os interesses do "velho Brasil" que são um freio ao crescimento da produtividade.

Fernando Dantas

26 Abril 2018 | 23h37

Envolvido na montagem de um grande e detalhado diagnóstico dos problemas brasileiros baseado na melhor pesquisa acadêmica, o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper, instituição de ensino superior e pesquisa, diz que o papel dos técnicos como ele é o de mostrar quais as prováveis consequências das diferentes opções de política públicas. Cabe aos políticos decidir os caminhos a tomar.

Porém, ao fim da sua apresentação no evento ocorrido ontem na sede do Insper em São Paulo de lançamento do primeiro documento – “Renda e produtividade nas duas últimas décadas” – da série “Panorama Brasil”, uma parceria entre a Oliver Wyman, empresa global de consultoria, e o Insper, Lisboa já estava propondo o fim dos cartórios no Brasil tal como hoje funcionam. O técnico não resiste a ser propositivo.

Lisboa, ex-secretário de Política Econômica da Fazenda e ex-presidente do IRB no primeiro governo Lula, está conversando intensamente com políticos e técnicos envolvidos em diferentes candidaturas a presidente da República.

Ele faz questão de separar, porém, o projeto da Oliver Wyman e do Insper das suas iniciativas pessoais. Mas ambos são apartidários. No projeto Panorama Brasil, ele é apenas um dos três coordenadores, em pé de igualdade com Ana Carla Abrão, da Oliver Wyman e ex-secretária da Fazenda de Goiás, que vem trabalhando com afinco no tema da reforma do Estado, e do economista Vinicius Carrasco, ex-diretor de Planejamento do BNDES.

Referindo-se às suas iniciativas pessoais, e não ao Panorama Brasil, Lisboa diz que conversa com qualquer candidatura desde que não seja daquelas que “defendem que a Venezuela é uma democracia com dois lados (legítimos) em disputa”, ou “de gente que propõe fechar museu”. É uma clara alusão à extrema esquerda e à extrema direita na atual eleição, da qual quer distância.

Já Ciro Gomes, que não se encaixa em nenhum dos dois grupos acima, também não conta com a simpatia de Lisboa. Ele vê qualidades no candidato do PDT, “extremamente inteligente e com um bom histórico de gestor no Ceará”. Adicionalmente, seu irmão e aliado político Cid Gomes é responsável pela grande inovação bem sucedida no ensino fundamental da cidade cearense de Sobral, que depois se espalhou pelo País.

“O problema é que o Ciro tem ideias meio confusas, que oscilam de um extremo ao outro”, diz Lisboa. Ele se refere a ideias desenvolvimentistas de economistas ligados ao candidato que “acham que o problema do Brasil é câmbio e que a abertura comercial e a integração com o resto do mundo pode ser um problema”.

Para o presidente do Insper, “é uma agenda que mistura um pouco o sabor do Brasil velho com a superficialidade da análise que a gente assistiu nos últimos anos, e que deixou resultados muito ruins para o País”. Lisboa acha “surpreendente que economistas que erraram tantas vezes, que foram autores de planos heterodoxos que deram tão errado, que fizeram tão mal ao país, continuem participando do debate sem nenhuma autocrítica”.

Ele acrescenta que a janela de oportunidade para o Brasil resolver os seus problemas está se fechando.

Por vezes Lisboa soa bastante pessimista, como quando diz que “o problema hoje não está na política, mas sim na sociedade, que não quer fazer o ajuste”.

Ele menciona uma longa lista de grupos que se beneficiam de distorções do “Brasil velho” e que resistem a mudanças para melhorar o país: corporações de servidores entre o 1% mais rico do País que se opuseram à reforma da Previdência; o Estado do Rio que, mesmo mais rico que o resto do País, “pede o tempo todo para a União pagar pelos seus (do Rio) pecados”; empresários que não querem pagar tributos ou contribuir com a Previdência; e – algo que está deixando-o especialmente irado no momento – a aliança esdrúxula entre movimentos de defesa do consumidor e cartórios contra o cadastro positivo.

Por outro lado, o presidente do Insper diz que “já esteve mais pessimista”, porque em 2012 e 2013, quando ele e outros economistas alertavam sobre os desastres que estavam por vir, “a negação dos problemas era muito maior”.

Cadastro positivo é um tema que encoleriza Lisboa no momento e o faz pronunciar frases sarcásticas como a de que “o Brasil não é um pais pobre à toa, a gente faz muito esforço para ser pobre”.

Ele considera inacreditável que o País não tenha um sistema funcional de cadastro positivo, algo disseminado entre os países da OCDE e mundo afora, e que existe em “pares” do Brasil como o México.

Para o economista, o cadastro positivo é uma questão de cidadania, e sua ausência é uma grande injustiça com os mais pobres que “só tem a sua reputação” na hora de pedir crédito. Ricos como ele mesmo, explica Lisboa, têm imóvel próprio, automóvel, etc., que podem oferecer como garantia.

“A defesa do consumidor no Brasil foi contra o pobre poder usar o seu bom nome para pegar empréstimo”, atacou o presidente do Insper.

Ele explicou que, pelo sistema proposto de cadastro positivo que emperrou no Congresso, apenas as informações sobre pagamento ou não de créditos são repassadas pelos bancos para os três “birôs” de crédito (o mais conhecido é a Serasa), que são aprovados e supervisionados pelo Banco Central e devem ter patrimônio líquido mínimo de R$ 70 milhões. Os birôs então divulgam apenas as notas de créditos dos consumidores, e se vazarem qualquer informação sobre pagamento ou não de créditos podem ser processados no âmbito da lei de sigilo bancário.

Lisboa comparou o sistema aos “ratings” que praticamente todos os países e muitas empresas recebem de agências de classificação de risco como Moody’s, S&P’s e Fitch. “O país, as empresas e os cidadãos são avaliados com notas de crédito, isso é o normal, o básico”, ele disse.

Porém, na sua visão, as associações de defesa do consumidor, aliadas aos cartórios, “inventaram espantalhos de quebra de sigilos de informações e dados, e não apenas jogaram o bebê fora junto com a água do banho, como afogaram o bebê”.

Lisboa ressalva que a defesa do consumidor tem uma maioria de pessoas bem intencionadas, “mas que mostram um desconhecimento técnico muito impressionante”.

Ele não faz a mesma ressalva positiva em relação aos cartórios, que, para o economista, “hoje são um obstáculo a reformas para melhorar o Brasil”.

O presidente do Insper prossegue no ataque, dizendo que “se tem um exemplo do Brasil velho, do retrocesso, são os cartórios”. Segundo o economista, nas mais diversas partes do mundo já se substituíram sistemas como o que funciona no Brasil por alternativas “mais eficientes, sofisticadas e seguras de controlar registros do que o velho cartório, que não é apenas um custo para o País, mas que ainda por cima impede avanços”.

A série de documentos do Panorama Brasil, segundo Lisboa, na qual a participação da Oliver Wyman é fundamental, busca sair do “debate superficial de câmbio e juro” para investigar com rigor acadêmico a imensa quantidade de problemas específicos que precisam ser enfrentados no Brasil, como a complexidade tributária e o comércio exterior fechado, e que não se resolvem “com uma, duas ou três leis”.

Assim, a proposta da série de estudos é investigar temas como os tipos de reformas de crédito que deram certo no mundo, os efeitos de intervenções setoriais e regulatórias, os impactos das mudanças nas regras de cálculos das concessões, como se dá o arcabouço e a governança dos investimentos em infraestrutura bem sucedidos em outros países, qual o papel das agências reguladoras, como devem ser os mandatos dos diretores do Banco Central, como tratar a remuneração dos servidores públicos, como outros países enfrentaram o corporativismo do funcionalismo quando isto criou asfixia fiscal, etc.

“O Brasil não é um país que se descolou do resto do mundo à toa, nós temos muito coisa torta e esses velhos grupos de interesse que se beneficiam do País atrasado. Essa é uma agenda longa, trabalhosa, mas urgente – podemos não a seguir, tem muito exemplo de pais latino-americano que ficou para trás e está cada dia mais pobre. Mas eu espero que o Brasil não seja um deles”, conclui o economista.

Mas ele ressalva novamente que o trabalho com a Oliver Wyman não é uma agenda de propostas, e sim um mapeamento de diagnósticos, e que cabe aos políticos escolher os caminhos e aos técnicos indicar as prováveis consequências dessas escolhas. (Fernando.dantas@estadao.com)