O difícil timing do ajuste a política econômica

Fernando Dantas

09 de agosto de 2013 | 17h05

A presidente Dilma Rousseff voltou, hoje de manhã, a exibir seu otimismo em relação à conjuntura econômica. Em entrevista a rádios locais do Sul de Minas, a presidente disse que a inflação vem sistematicamente caindo, e que os indicadores de junho apontam para uma recuperação do PIB.

O discurso presidencial contrasta fortemente com o pessimismo crescente de analistas econômicos, que veem a tênue recuperação do segundo trimestre ameaçada por violento choque de confiança a partir de junho.

Por outro lado, o IPCA de julho de 0,03%, embora inegavelmente baixo, veio acima da mediana das expectativas dos analistas consultados pela AE-Projeções, que foi de -0,1%. O bom resultado foi fortemente influenciado pela redução das tarifas de ônibus (na esteira dos protestos) e pela queda sazonal no preço dos alimentos. Em ambos os casos, não se pode dizer que seja uma tendência consistente de desinflação. Isto fica claro também quando se leva em consideração que a inflação de serviços ficou em 0,64%, e acumula 8,46% em 12 meses – como notou o economista Alexandre Schwartsman, em relatório sobre o IPCA de julho.

Existe, portanto, um forte contraste entre o mundo pintado pela presidente da República e a realidade dos fatos. Essa insistência em omitir os problemas da economia, na qual Dilma segue os passos do ministro da Fazenda, Guido Mantega, cria exasperação em muitos observadores: parece teimosia, e sinaliza o risco de que a receita errada de política econômica será mantida, agravando ainda mais as dificuldades.

Entretanto, como esta coluna argumentou recentemente, é muito pouco provável que Dilma e Mantega reconheçam erros e a necessidade de uma radical mudança de curso a pouco mais de um ano das eleições presidenciais. Certamente, tal atitude seria o equivalente a dar munição para os candidatos de oposição, que vão tentar explorar ao máximo o fiasco da chamada “nova matriz econômica”.

Isto não significa, porém, que não esteja ao alcance da presidente um ajuste discreto da política econômica, que poderia ser empreendido sem grandes recuos no discurso oficial.

Na verdade, essa mudança já começou, de forma muito suave e parcial, quando o Banco Central (BC) endureceu seu discurso anti-inflacionário no final de abril.

A largada para o ciclo de alta do juro básico já havia sido dada no aumento da Selic em 0,25 em meados daquele mês, mas foi a partir de um duríssimo discurso do diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton, num evento organizado pelo Itaú em São Paulo no dia 25 de abril (mesmo dia da divulgação da ata), que o BC sinalizou que estava disposto a recuperar sua credibilidade como inimigo da inflação. No lado concreto, a dose de altas da Selic por reunião foi ajustada para 0,5 ponto porcentual.

Em tese, nada impede que movimentos semelhantes de volta a uma postura mais ortodoxa sejam empreendidos em outras áreas da política econômica: um compromisso com um superávit primário mais alto, que poderia ser reforçado por um fim explícito das manobras contábeis; a contenção do crédito dos bancos públicos, para ajudar o BC no front inflacionário; e uma sinalização firme de que os leilões de concessão seguirão o princípio de que as taxas de retorno devem ser fixadas pelo mercado.

Com um conjunto de decisões relativamente simples nas áreas mencionadas, o governo de Dilma Rousseff poderia reparar a relação com empresários, investidores e analistas econômicos e financeiros (e até com defensores decepcionados, como ex-ministro Delfim Netto), sem necessidade de nenhum recuo drástico no discurso sobre a política econômica às vésperas do ano eleitoral.

A presidente prosseguiria pintando cenários otimistas, e a economia petista continuaria a ser vendida como inclusiva e geradora de empregos. A tentativa de resgate da credibilidade ortodoxa do primeiro mandato de Lula seria empreendida com ações, e não com reconhecimento público de problemas e com palavras de autocrítica.

O fato de que o governo não tenha optado por este ajuste até agora, na opinião de muitos, deve-se a uma questão ideológica: Dilma vê com desconfiança a política econômica ortodoxa, e foi uma das maiores entusiastas da chamada nova matriz.

Uma segunda explicação, que não exclui a primeira, é a de que o governo não está convencido de que o resgate da confiança possa relançar a economia a tempo de que os frutos eleitorais sejam colhidos no ano que vem. Por outro lado, para recuperar a credibilidade, seria necessário interromper o festival de medidas para estimular a demanda que vem sendo realizado, com efeitos muito decepcionantes, desde o final de 2011.

Por mais que o governo perceba que esta receita não está dando certo, certamente seria preciso sangue frio para atar as próprias mãos e jogar todas as fichas do ciclo eleitoral num suposto arranque da economia pela via do restabelecimento da confiança. Por outro lado, quanto mais tempo Dilma esperar para tomar esta decisão – que poderia, inclusive, implicar trocas na equipe econômica –, menores são as chances de que haja tempo para que dê certo do ponto de vista eleitoral.

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News Broadcast

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

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