O estranho mundo em que o Brasil se ajusta

Fraqueza da economia global pode ajudar Brasil no curto prazo, mas atrapalhar retomada do crescimento a médio e longo prazo.

Fernando Dantas

16 Abril 2015 | 17h43

O Brasil faz o seu grande ajuste econômico num momento peculiar da economia global. Economistas de renome mundial, como Lawrence Summers, Ben Bernanke, Paul Krugman e o articulista Martin Wolf do Financial Times, entre outros, vêm debatendo e tentando diagnosticar a fraqueza da economia global, as forças deflacionárias e os juros ultrabaixos no mundo desenvolvido.

Do ponto de vista brasileiro, a debilidade da economia mundial traz um possível bônus de curto prazo e um ônus de médio e longo prazo. O primeiro é que o previsto início da alta dos juros básicos nos Estados Unidos, mesmo que ocorra este ano, será acompanhando de uma comunicação ultracautelosa por parte do Federal Reserve (Fed, BC dos EUA), preocupado que um salto exagerado na curva de juros americana – que também reforçaria a tendência de valorização do dólar – aborte a recuperação econômica. Paralelamente, zona do euro e Japão prosseguem injetando liquidez. Assim, há chances de que os investidores internacionais permaneçam tolerantes em relação ao financiamento do elevado déficit em conta corrente brasileiro por mais tempo.

Do outro lado da moeda, se e quando o ajuste brasileiro for concluído, a fraqueza da economia global pode complicar a retomada do crescimento nacional em níveis minimamente satisfatórios – especialmente se a recuperação do Brasil tiver que ser puxada pelo setor externo, como se supõe seria o caso se de fato houver um ajuste dos preços relativos, com os produtos comercializáveis internacionalmente (tradables) valorizando-se ante os não comercializáveis (non tradables).

Na terça-feira (14/5/15), no 4º Encontro de Resseguro do Rio de Janeiro, no hotel Sofitel, os economistas Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central), e José Júlio Senna, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV-Rio, abordaram a questão da economia global em suas apresentações. Ambos vêm tratando recentemente do tema em suas pesquisas e pronunciamentos públicos.

Pastore chama a atenção para o final da “bonança externa”, com o fim tanto do ciclo de elevação das commodities como da fase de crescimento exuberante do comércio mundial. Ele nota que a forte queda na velocidade de crescimento do valor em dólares das exportações mundiais não se deve apenas aos preços, mas também às quantidades. Para ele, os processos que ocasionaram o boom do comércio precedente – integração de emergentes, queda de custos com acordos comerciais e avanço tecnológico e o aprofundamento da divisão internacional do trabalho pelas cadeias globais de produção – parecem ter esbarrado em limites. Assim, o fenômeno é estrutural, e não transitório.

Outro ponto relevante para Pastore é o início de um ciclo de intenso fortalecimento do dólar. O economista nota que os ciclos de valorização e desvalorização do dólar são longos, e nos últimos dois (nos anos 80 e no início dos anos 2000), a moeda americana fortaleceu-se bem mais do que os patamares já atingidos no ciclo que se inicia. Isto, para ele, é uma das forças que compõem a tendência de enfraquecimento do real.

Já Senna vem pesquisando diversos aspectos da malaise global, como, por exemplo, o rescaldo de excesso de endividamento pós-crise de 2008 e 2009, difícil de ser digerido num mundo com tendências deflacionárias. Ele mostra que a dívida total, pública e privada, continua crescendo em várias economias. Entre 2009 e 2013, como proporção do PIB, ela saiu de 308,2% para 346,5% em Portugal; de 267,2% para 289,2% na Espanha; de 333,1% para 406,9% na Irlanda; de 251,9% para 304,5% para Grécia – para pegar a problemática periferia do euro –; de 273,1% para 280,9% nos Estados Unidos; e de 262,4% para 267,8% no Reino Unido.

Já os salários reais estão estagnados no mundo desenvolvido, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT): depois de caírem 0,5% em 2011, cresceram apenas 0,1% e 0,2% em, respectivamente, 2012 e 2013. Adicionalmente, as taxas de investimento e a inflação, com destaque para os preços do atacado, vem caindo em países ricos e mesmo em importantes economias, como a chinesa.

A discussão sobre as causas do enfraquecimento da economia global é complexa e fascinante, como exposto há poucos dias em mais um brilhante artigo de Wolf, do Financial Times. Temas como a “estagnação secular” e o excesso de poupança entremeiam-se com o debate sobre a natureza do fenômeno, pelos lados da oferta da demanda, e com características mais temporárias ou mais permanentes.

De qualquer maneira, esse é um pano de fundo para o atual ajuste da economia brasileira muito diverso dos que existiram durante as correções de 1999 e de 2002/2003. Somado ao fato de que as próprias condições domésticas são também muito diferentes, com menor fragilidade macroeconômica mas provavelmente problemas estruturais agravados, tudo aponta que o atual ajuste é efetivamente uma viagem por mares não cartografados e cujos resultados são extremamente difíceis de prever. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast  

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 15/4/15, quarta-feira.