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O estresse financeiro foi bom para os emergentes?

Fernando Dantas

30 de outubro de 2013 | 23h03

Em recente artigo no Capital Finance International (CFI), o economista Otaviano Canuto, analista sênior dos Brics no Banco Mundial, argumenta que o estresse financeiro de meados deste ano pode ter sido positivo para países emergentes pegos no contrapé, como Brasil, Índia, África do Sul, Indonésia e Turquia. O CFI é uma publicação impressa e online de notícias e análises de mercados emergentes.

A tese de Canuto (desenvolvida também em artigo no Huffington Post) é de que a piora nas condições financeiras serviu para aqueles países como sinal de alarme, e também como uma espécie de “ensaio” do que pode acontecer quando de fato a política monetária superacomodatícia dos Estados Unidos começar a ser revertida.

Como se sabe, foram justamente declarações das autoridades monetárias norte-americanas, no final do primeiro semestre, sobre a possibilidade de um início iminente da redução das medidas de estímulo que provocaram a alta das taxas de juros de longo prazo nos Estados Unidos e, consequentemente, desvalorizações drásticas de moedas de diversos países, como o Brasil.

Em setembro, porém, ao fim da reunião do seu comitê de política monetária, o Federal Reserve (Fed), BC americano, anunciou que não começaria já a retração das medidas expansionistas, e agora as expectativas são de que este momento tenha se transferido para algum ponto do primeiro semestre de 2014.

Esse adiamento, e uma série de outros fatores positivos para os emergentes desde meados do ano, reduziu muito a tensão nos mercados, fazendo com que o estresse iniciado em maio tenha sido um evento bem delimitado no tempo.

É verdade que não se retornou às condições anteriores, já que tudo indica que ocorreu uma mudança duradoura no nível de importantes indicadores. Não está no radar, por exemplo, que a taxa de câmbio brasileira recue do nível atual, em torno de R$ 2,20, para menos de R$ 2, onde esteve por boa parte dos primeiros meses do ano.

Ainda assim, uma certa calma voltou a se instalar, o que significa que países como o Brasil tiveram uma “prova” de como pode ser a conjuntura na normalização da política monetária americana, e agora, em condições não-turbulentas, podem planejar com tranquilidade a sua estratégia para o momento do “encontro com a realidade” – na expressão usada em recente entrevista à Broadcast pelo ex-presidente do BC, Arminio Fraga.

No seu artigo no CFI, Canuto conclui que “a retirada das políticas de afrouxamento quantitativo (nome técnico das medidas expansionistas do Fed e de outros BCs do mundo rico) pode em última instância ser uma boa notícia para os mercados emergentes, especialmente se a remoção da liquidez global for seguida por um foco mais estreito na promoção de reformas e reestruturações específicas de cada país”.

Mas esse é um ponto duvidoso (o próprio Canuto o expõe como uma possibilidade, não como uma certeza).

A ideia de que a “prova” de um mundo sem liquidez abundante seja suficiente para levar países emergentes com políticas econômicas mais polêmicas a abraçar um novo ciclo de reformas esbarra nos constrangimentos políticos que, muitas vezes, são as causas mais profundas dos desvios da ortodoxia. É sabido que só se vencem certas resistências à reforma quando o fundo do abismo fica bem visível para todos os agentes econômicos e atores sociais.

No caso do Brasil, é verdade que há um discreto e suave ajuste da política econômica em curso, com maior grau de autonomia tendo sido conferido ao Banco Central e um esforço redobrado do governo em atrair o setor privado para investimentos em infraestrutura. Mas é importante notar que essas correções precederam o estresse de maio, e tem mais a ver com a percepção do governo sobre os fracos resultados, em termos de crescimento e inflação, obtidos pela mal sucedida “nova matriz econômica”.

Um exercício contrafactual interessante, por exemplo, é pensar se a renegociação da dívida de Estados e municípios – cuja generosidade beneficiará de forma particularmente intensa a cidade de São Paulo, governada pelo petista Fernando Haddad – teria sido bancada pelo governo federal caso o nervosismo de agosto, quando o dólar superou R$ 2,40, tivesse se estendido até hoje (é verdade que o recuo deveu-se em boa parte à “ração diária” do BC, mas é inegável que a tranquilização externa também contribuiu).

Assim, uma outra hipótese é que o fôlego curto da turbulência de meados do anos – em termos do seu impacto nos emergentes – pode ter adiado um novo ciclo de reformas, e não preparado o terreno para ele. Nos próximo meses e anos, a resposta à esta questão deve ficar clara.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast

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