O fator externo

Ambiente internacional dessa vez não foi o vilão dos péssimos dias no mercado brasileiro.

Fernando Dantas

30 Maio 2018 | 22h16

Desta vez, não há dúvida de que foi o Brasil mesmo. A grande piora dos ativos brasileiros nos últimos dias está indubitavelmente ligada à crise da Petrobrás e dos caminhoneiros, e em tudo o que ela sinaliza em termos de perdas fiscais e de volta às piores práticas na área de preços de combustíveis e fretes.

Para reforçar esse fato, o mercado externo até voltou a se tornar um pouco mais amigável para economias emergentes frágeis como o Brasil da semana passada para cá, embora os problemas políticos da Itália possam mexer de novo com este quadro.

Há cerca de duas semanas, o mercado de juros futuros norte-americano sinalizava uma divisão meio a meio entre a probabilidade de que haverá duas ou três elevações dos Fed Funds (taxa básica dos Estados Unidos) este ano, e as chances de haver quatro ou cinco altas. Hoje, pouco antes de meio dia e meia, a probabilidade de quatro ou cinco elevações dos Fed Funds em 2018 (uma já foi realizada), precificada no mercado de juros, era de 25%.

Não surpreendentemente, a taxa de juros dos títulos de dez anos do Tesouro americano, depois de testarem níveis acima de 3,1% recentemente, hoje estavam em cerca de 2,85%.

Adicionalmente, a pressão no preço do petróleo deu uma aliviada, com refluxo da movimentação que, para alguns, poderia levar a commodity a um nível acima de US$ 80 o barril do tipo brent. Hoje a cotação está em torno de US$ 75. Contribui para essa trégua a posição de dois protagonistas do mercado, a Arábia Saudita e a Rússia, que sinalizaram que podem aumentar a oferta para compensar o colapso da produção venezuelana e a redução das vendas do Irã em função da retirada dos Estados Unidos do acordo anti armas nucleares que o país persa assinou com as principais potências ocidentais.

Por outro lado, a cotação do dólar contra a cesta de moedas dos seus parceiros internacionais, o dollar index, não reverteu o movimento de alta recente, o que pode explicar ao menos parte da depreciação do real nos últimos dias. Já a forte alta dos juros internos e as grandes quedas da bolsa parecem ser bem mais influenciadas pelos eventos domésticos.

E há, finalmente, a situação política complicada na Itália, com a dificuldade de formar um novo governo e o protagonismo de forças populistas e anti moeda única. Problemas políticos em países europeus com potencial de piorar o desempenho econômico do continente são negativos para emergentes como o Brasil, pois acentuam a disparidade entre a robusta recuperação norte-americana e a retomada europeia muito menos dinâmica. Esse contraste tende a fortalecer o dólar ante o euro, o que pode acabar também se refletindo em outras moedas mais periféricas.

Há, portanto, um pequeno respiro na cena externa de enxugamento de liquidez, sem o qual a crise dos caminhoneiros poderia ter um reflexo ainda pior nos mercados domésticos. O Brasil segue frágil e à mercê dos humores internacionais, e com a perspectiva de que os posicionamentos dos candidatos a presidente mais bem posicionados nas pesquisas comecem gradualmente a pesar mais nos preços. E o que se ouviu até agora não é nada bom. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/5/18, terça-feira