O fator imponderável

Ano começa com bons ventos para a combalida economia brasileira, mas existe uma reforma da Previdência a aprovar no meio do caminho.

Fernando Dantas

09 de janeiro de 2017 | 13h58

O ano se inicia com boas notícias para o Brasil. A economia global parece estar ganhando ritmo e os preços das commodities, muito importantes para o Brasil, vêm se recuperando. Prevalece nos mercados mundiais a aposta de que os aspectos potencialmente positivos do governo Trump prevalecerão sobre os aspectos potencialmente negativos. No primeiro campo, estão a desregulamentação, um novo impulso fiscal (via corte de impostos, principalmente) e investimentos em infraestrutura. No lado negativo, o protecionismo, uma possível guerra comercial com a China ou conflitos geopolíticos ainda mais sérios.

Economistas influentes e de renome global vêm discutindo as perspectivas de um governo Trump. Kenneth Rogoff vê chances muito consideráveis de retomada do crescimento e da inflação em 2017, o que de certa forma corresponderia à “cura” definitiva da economia global pós-crise de 2008 e 2009.

Rogoff é o principal expoente da corrente que vê os anos de crescimento fraco e irregular e de ameaça deflacionária no mundo avançado pós-2009 como consequência esperada de uma crise financeira mundial de grande magnitude. Estudioso de crises econômicas ao longo de séculos de história, ele nota que longos processos de desalavancagem são recorrentes depois de estouro de bolhas como o ocorrido em 2008 (nos mercados imobiliário e financeiro), mas que o funcionamento normal da atividade econômica sempre acaba voltando.

Ele aposta que as políticas expansionistas de Trump podem ser a gota d’água para o arranque final da economia americana (que já é a mais avançada no mundo rico na digestão dos efeitos contracionistas da crise), mas isso não quer dizer que descarte novos problemas mais à frente, exatamente em decorrência do protecionismo e do descuido fiscal do presidente eleito.

Outro analista otimista no curto prazo é Gavyn Davis, gestor de recursos e colunista do Financial Times, que aponta o quadro muito favorável dos “nowcasts”, os indicadores de atividade econômica presente, nos principais blocos da economia global. Numa postura mais cautelosa, diante dos riscos que Trump representa para o sistema de comércio global e para a estabilidade geopolítica do mundo, estão Martin Wolf, também colunista do FT, e Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro norte-americano, que acha que o mercado está tranquilo demais em relação ao próximo presidente americano.

Do ponto de vista do Brasil, entretanto, o que importa mais é a percepção dos mercados, que se traduz imediatamente em melhora de indicadores relevantes ou mesmo vitais para a atual estratégia de política econômica. Assim, o dólar se aproxima do nível de R$ 3,2, bastante favorável à gestão do ciclo de afrouxamento monetário pelo Banco Central; os juros recuaram bem dos níveis de maior nervosismo após a eleição de Trump, o que é “menos pior” em termos de sufocar qualquer incipiente retomada; e a bolsa recuperou o nível de 60 mil pontos, o que pode representar um alento mínimo no clima de negócios para a temporada de venda de ativos e concessões.

Dois eventos chave, um a curtíssimo prazo e outro no decorrer do primeiro semestre, devem se mostrar decisivos para a “travessia da pinguela” do governo Temer. O primeiro é a verdadeira face do governo Trump – e o peso relativo do “lado bom” e do “lado ruim”, em termos econômicos –, que deve começar a ficar clara já a partir do discurso de posse em 20 de janeiro e das primeiras decisões presidenciais.

O segundo, em relação ao qual os cientistas políticos têm grande dificuldade de fazer prognósticos, é o quão bem-sucedido Temer será em aprovar a maior parte da sua reforma da Previdência. A situação em que um presidente extremamente impopular (o que não deve mudar muito até a votação da reforma, dado o timing previsto da retomada), mas com grande poder e influência sobre o Congresso, tenta passar a mais difícil das reformas estruturais é inédita, o que dificulta previsões. É bastante provável que resida nesse fator imponderável a diferença entre o sucesso e o fracasso da atual estratégia de política econômica. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/1/17, quarta-feira.o 

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