O fator juro real

Se tudo der muito certo na estratégia anti-inflacionária e no ambiente internacional, esforço fiscal pode ter ajuda da queda do juro real, que impacta a dinâmica da dívida pública.

Fernando Dantas

07 de agosto de 2016 | 23h12

Um fator que pode ajudar o Brasil a sair da atual crise fiscal e econômica é uma queda do juro real maior do que a antecipada na maioria das projeções da trajetória da relação entre a dívida pública e o PIB. Não é algo que vá acontecer a curto prazo, naturalmente. Mas se a estratégia desinflacionária do novo Banco Central (BC) for muito bem-sucedida – um grande “se” –, há alguma chance de que isso ocorra. Obviamente este cenário também pressupõe que o governo consiga tocar de forma aceitável a agenda fiscal.

Num primeiro momento, o juro real em prazos mais curtos aumentaria, quando a inflação projetada já estivesse em queda expressiva, mas o ciclo de afrouxamento monetário ainda estivesse por começar ou em seus estágios iniciais.

Mais à frente, porém, poderia ocorrer uma boa surpresa no juro real – decorrência, é claro, de queda mais agressiva do juro básico –, provocada por duas causas. A mais evidente delas é o ambiente de juros internacionais baixíssimos e até mesmo nominalmente negativos em alguns casos.

A altíssima liquidez aumenta a complacência dos mercados internacionais. Apesar de todas as notícias e críticas sobre a forma aparentemente frouxa com que o governo Temer tem feito negociações – com impacto fiscal – com funcionários públicos e Estados, o real se fortaleceu e a bolsa subiu. Na turbulenta Turquia, após um movimento inicial e abrupto de desvalorização da lira com a abortada tentativa de golpe em 15 de julho, a moeda voltou a se apreciar (embora permaneça mais depreciada do que pré-tentativa de golpe).

A moeda apreciada, naturalmente, ajuda a baixar a inflação e pode trazer junto os juros internos dos países emergentes que estão recebendo capitais.

No Brasil, um segundo fator que poderia derrubar os juros e a inflação é o fato de que a economia está num processo de desalavancagem depois de um ciclo forte de expansão do endividamento de empresas e famílias iniciado no boom do governo Lula. Houve também muito capital enterrado em projetos megalômanos e mal concebidos (o caso da Sete Brasil é emblemático), que têm que ser solucionados e digeridos antes de um vigoroso novo ciclo de investimentos.

Assim, é possível que o País passe por alguns anos de demanda relativamente amortecida, o que seria compatível com juros reais de equilíbrio mais baixos.

Obviamente, demanda fraca significa baixo crescimento, o que não ajuda a melhorar as perspectivas da relação dívida/PIB. A questão, entretanto, é até que ponto esse mau desempenho da atividade já está incorporado nas projeções da dívida/PIB, enquanto que a possibilidade de um juro real significativamente mais baixo do que as atuais projeções ainda não entrou no radar. Assim, o governo poderia alimentar a esperança de que, se tudo der certo na estratégia anti-inflacionária e o mercado internacional mantiver seu atual apetite de risco, uma boa surpresa poderia ser colhida no juro real. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/8/16, sexta-feira.

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