O fiasco da Terceira Via e o futuro

É cedo para bater o martelo, mas as indicações são de que não haverá uma candidatura competitiva para quebrar a polarização entre bolsonarismo e lulismo. Quais as implicações políticas?

Fernando Dantas

18 de maio de 2022 | 19h33

Ainda é prematuro para bater o martelo, mas há fortes indicações de que a eleição presidencial de 2022 representará o fim das esperanças no surgimento de uma terceira via que tire o País da polarização entre bolsonarismo e lulismo.

Polarização, claro, não significa equivalência. Lula nunca se tornou uma ameaça à democracia brasileira como Bolsonaro. Mas é indiscutível que ambos os candidatos têm carreiras políticas baseadas num culto bastante fervoroso às suas carismáticas personalidades. Ambos estão muito longe de encarnar o ideal de retidão e honestidade que os brasileiros gostariam de ver no seu presidente.

Ambos são líderes populistas, e não vai aqui juízo de valor. Tanto num caso como no outro, a opção de compor com o centro sempre esteve aberta. Lula fez isso concretamente nos anos iniciais do seu governo. E parte do eleitorado de 2018 de Bolsonaro esperava que o recém-eleito presidente – mesmo com o seu grotesco histórico de declarações e posicionamentos radicais – fosse pelo mesmo caminho. Mas ele não foi.

O desaparecimento do centro liberal como protagonista da política brasileira, se confirmado pela atual eleição, é uma mudança e tanto.

Pela maior parte do atual período democrático, a política brasileira tinha algumas características marcantes. De um lado o PSDB, um partido de elite, com uma agenda de reformas modernizadoras do capitalismo, que, apesar da falta de apelo populista, conseguia votos da população e alianças no Congresso para governar.

Do outro lado estava o PT, de base popular, nascido do movimento sindical, com a liderança carismática de Lula. No discurso, o PT sempre tendeu a apoiar uma agenda típica do populismo de esquerda na América Latina, com intervencionismo estatal, heterodoxia macroeconômica e forte distributivismo, com toques de anticapitalismo. Na prática, porém, o partido oscilou a maior parte do tempo entre uma versão menos radical dessa agenda de esquerda e momentos em que incorporou, inclusive, programas mais liberais, próximos das ideias do PSDB.

Com a saída de cena do protagonismo tucano, o PT se vê às voltas com um adversário totalmente diferente. Em primeiro lugar, o bolsonarismo incorporou com fúria uma pauta comportamental e de valores extremamente conservadora – algo que os tucanos sempre tiveram dificuldade em fazer –, que parece ter crescente apelo popular no Brasil.

Na área socioeconômica, o bolsonarismo é uma salada caótica. Por um lado, Paulo Guedes com um discurso ultraliberal que também jamais foi assumido pelos tucanos. Por outro, há uma forte predisposição de embarcar em distributivismo populista (como o Auxílio-Brasil), sem preocupações tecnocráticas.

Lula em tese tem uma eleição relativamente fácil pela frente. Bolsonaro chega no ano eleitoral com níveis extremamente elevados de desemprego e inflação, como consequência principalmente da pandemia, e o voto econômico costuma ser decisivo no Brasil. Além disso, Bolsonaro foi um negacionista da pandemia e se posicionou de forma absurda em diversas outras questões, o que dá um prato farto para ser explorado contra ele na campanha eleitoral.

Talvez por causa disso, Lula pode ser dar ao luxo de levar sua candidatura com o mesmo tipo de discurso que empregava contra os tucanos, atacando a elite que governa o País em benefício próprio e em detrimento das massas pobres.

Mas a política brasileira mudou e combater o adversário que desapareceu do cenário não vai funcionar para sempre. Caso seja eleito, Lula vai ter que lidar com um agenda de costumes que pode trazer problemas para ele, e pode ser desafiado na área social e econômica por um adversário sem o mínimo escrúpulo em defender posições insustentáveis e destrutivas.

Nesse contexto, mais do que nunca, o candidato petista deveria pensar seriamente em ocupar o centro político e mobilizar para seu plano de governo – e possivelmente para o próprio governo – o exército de jovens técnicos que nos últimos anos fizeram uma espécie de ponte entre o melhor do petismo e dos tucanos. Um exemplo são todos os envolvidos no livro “A Reconstrução – Brasil nos Anos 20”.

Provavelmente Lula não precisa disso para ganhar a eleição, mas trocar o surrado discurso populista antitucano por uma real aliança com o centro, isolando o bolsonarismo como uma aberração radical, talvez seja o melhor caminho para governar a partir de 2023. Com o fim do protagonismo político do centro liberal, Lula tem a oportunidade de absorver e integrar este campo à sua própria arquitetura política.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/5/2022, quarta-feira.