O FMI e as narrativas do crescimento econômico

Estudo de economistas do Fundo, com base em ferramentas de análise de texto aplicadas a 4.260 relatórios sobre países do FMI de 1978 a 2019, identifica quatro grande conjuntos de narrativas sobre o que leva os países a crescerem economicamente.

Fernando Dantas

05 de fevereiro de 2021 | 13h00

Uma das principais questões econômicas, se não a mais importante, é sobre por que os países têm crescimento econômico. Ou por que alguns têm mais e outros menos.

Recente trabalho de Reda Cherif, Marc Engher e Fuad Hasanov, economistas do FMI, se propõe a organizar a forma como as principais narrativas sobre crescimento (baseadas em diferentes teorias econômicas) se tornaram importantes e depois perderam força, do final da década de 70 até os dias de hoje.

Para isso, eles utilizam ferramentas de análise de texto do FMI aplicadas a 4.260 relatórios sobre países, produzidos de 1978 a 2019. A frequência de um vocabulário de 113 palavras associadas a crescimento, como ‘infraestrutura’, ‘governança’ e ‘educação’, é mapeada.

A ideia é que, pela importância e centralidade do FMI no establishment econômico, seus textos meio que capturam as ideias e narrativas que prevaleciam a cada momento.

Com isso, quatro grupos de narrativas básicas sobre crescimento econômico são identificadas.

O primeiro grupo é chamado pelos autores de “Estrutura Econômica”, e está associado a termos ligado a setores industriais como serviços, manufatura, construção e a agricultura.

Esse complexo de narrativas foca no estudo dos setores e de suas interconexões e deriva dos trabalhos de Wassily Leontief, prêmio Nobel de Economia de 1973, famoso por seu trabalho na matriz de insumo-produto. Segundo o estudo do FMI, esse tipo de narrativa foi dominante até meados dos anos 90 e depois caiu.

Outro grupo de narrativas é o do Consenso de Washington que, segundo os autores, era marginal até meados dos anos 80, quando começou a crescer, chegando a um pico nos anos 90, quando vários países socialistas, como os do bloco soviético, estavam em transição para o capitalismo.

A base da narrativa do Consenso de Washington, de acordo com o trabalho, é o princípio de que privatização e liberalização são benéficos para o crescimento econômico por que empresas privadas são mais eficientes do que estatais. A partir dos anos 2000, esse grupo de narrativas perdeu força, até se tornar marginal novamente, relatam os economistas do FMI.

Um terceiro conjunto de narrativas, “Reformas Estruturais”, busca explicar o crescimento econômico como ligado à qualidade das instituições e ao arcabouço regulatório.

Os autores citam, como expoentes dos trabalhos em que baseia esse conjunto de narrativas, os economistas Daron Acemoglu e James Robinson, que coautoraram livros de grande repercussão como “Por Que As Nações Fracassam: As Origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza e “The Narrow Corridor: States, Society and the Fate of Liberty” (“O Corredor Estreito: Estados, Sociedade e a Sina da Liberdade”).

Segundo o estudo, essa era a narrativa mais influente na década de 2000, mas continuava relevante ao final da década de 2010 (o trabalho vai até 2019).

Finalmente, há o grupo de narrativas que os autores chamam de “Constelação de Washington”), e que abrange muito termos disparatados como produtividade, turismo, ambiente de negócios, infraestrutura, habilidades (ou capacitações – a palavra em inglês é “skills”) e acesso a financiamento. É uma narrativa em que, obviamente, o crescimento é visto como um fenômeno de múltiplas causas.

Esse conjunto final vem crescendo como narrativa desde o final dos anos 90 e se tornou o principal discurso sobre crescimento econômico no final da década de 2010.

Os autores encontram também momentos chave, do ponto de vista econômico e político, que marcam o arranque ou o início de enfraquecimento dos diferentes conjuntos de narrativas sobre o crescimento econômico.

Assim, em 1984, quando Reagan conquistou seu segundo mandato, e influenciou o mundo com o ímpeto da sua agenda liberal, é um ponto de arrancada tanto do Consenso de Washington quanto da narrativa de “Reforma Estrutural” – e marca também o início da perda de influência da “Estrutura Econômica”.

Já a crise asiática em 1997 fez decolar a “Constelação de Washington” e murchar o Consenso de Washington.

Finalmente, tomando todo o conjunto de relatórios do FMI analisados de 1978 a 2019, o trabalho aponta algumas peculiaridades.

Termos associados à discussão de crescimento como tecnologia, inovação e política industrial aparecem muito menos do que expressões como instituições, governança e reformas estruturais.

Política industrial tinha algum peso nos anos 80, mas depois saiu de moda, com um leve retorno recentemente. Uma das seções do trabalho é intitulada “Política Industrial: A Narrativa Esquecida”.

Eles notam ainda que termos básicos de teoria do crescimento, com tecnologia e inovação, e de teoria do desenvolvimento, como industrialização e orientação exportadora, foram quase  ignorados nos relatórios analisados.

O trabalho conclui com referências a John Mainard Keynes e Robert Shiller, prêmio Nobel de Economia, sobre o poder de narrativas e ideias influenciarem não só o público, mas também os próprios economistas e as políticas econômicas implementadas pelos países.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/3/2021, quarta-feira.