O fôlego do otimismo

Até meados do semestre, quando a eleição deve ganhar contornos mais nítidos que podem (ou não) assustar os investidores, parece haver espaço para que o mercados melhorem ainda mais.

Fernando Dantas

31 de janeiro de 2018 | 17h04

O mercado iniciou a semana com uma correção discreta, com a bolsa e o dólar em leve alta nesta segunda-feira (29/1/18). Finda a fase inicial de celebração do veredito unânime contra Lula na segunda instância, a questão é saber o tamanho do fôlego para novas altas das ações e quedas do dólar e dos juros.

“Pelo andar da carruagem, (o mercado favorável) deve continuar”, diz Alexandre Pavan Póvoa, sócio-fundador da gestora Canepa, no Rio. Ele nota que ainda há um possível novo corte da Selic pelo Banco Central em fevereiro e, no mesmo mês, “uma tênue chama da reforma da Previdência, que pode servir para o mercado dar mais uma pernada de alta”.

Não há mistério sobre a razão pela qual o mercado e as expectativas sobre a economia brasileira melhoram com a inviabilidade da candidatura de Lula. O ex-presidente e o PT vêm sinalizando que retomar alguns dos mais deploráveis aspectos da nova matriz econômica – como a expansão irresponsável do crédito dos bancos públicos e a intervenção pesada do Estado na economia – faz parte da proposta eleitoral de 2018.

A questão então se torna muito simples. Com Lula fora do páreo, aumentam as chances de vitória de algum candidato que dê prosseguimento ao trabalho de reconstrução da economia após o cataclismo provocado pela nova matriz – este processo de saneamento, aliás, iniciou-se no segundo mandato de Dilma Rousseff com Joaquim Levy no ministério da Fazenda. Nelson Barbosa, que o substituiu, tentou prosseguir o ajuste, mas a perda total da governabilidade política de Dilma levou ao impeachment.

Tomás Brisola, economista-chefe do Bahia Asset, considera inclusive que o otimismo do mercado com os fatores políticos internos, que se iniciou antes da condenação de Lula em segunda instância, também é baseado numa percepção mais ampla por parte de formadores de opinião, imprensa e elite política e empresarial da importância de resolver o problema fiscal brasileiro.

“O eleitor mediano continua sem compreensão da questão fiscal, mas acho que a elite política e econômica está razoavelmente alinhada para que o próximo governo seja fiscalmente responsável”, ele diz.

E há, finalmente, o suporte externo para a tortuosa e lenta arrumação das contas públicas brasileiras. A impressão que se tem é que os investidores internacionais voltaram a “descobrir” o Brasil depois da impressionante safra de más notícias políticas e econômicas de 2015, 2016 e parte de 2017. Assim, os portfólios, que estavam muito “leves” em ativos com risco Brasil embutido, estariam voltando para níveis mais equilibrados.

O dinheiro externo já vinha entrando em volumes notáveis antes mesmo da condenação de Lula no TRF-4, e o movimento prossegue. Há apetite para o Brasil e, como nota Póvoa, “depois que o Brasil sofreu um rebaixamento pela S&P, a Petrobrás conseguiu captar US$ 2 bilhões lá fora sem nenhum problema”.

Toda essa bonomia internacional, entretanto, se sustenta no cenário externo róseo deste início de ano, com crescimento sincronizado e não inflacionário de Estados Unidos, Europa e Japão, e uma expansão chinesa sem os temores e sobressaltos que inquietaram os mercados nos últimos anos.

Particularmente positivo é o fato de que a rentabilidade do título do Tesouro americano de dez anos tenha subido de 2,05% para 2,7% desde setembro sem provocar comoção nos mercados. Isto é, depois da calmaria dos juros baixíssimos, o que está vindo é uma brisa moderada, e não um furacão.

A lua de mel dos mercados com o Brasil poderia acabar tanto por fatores externos como internos. No primeiro front, fora algum grande imbróglio geopolítico, não há ainda sinais do radar de algo que possa estragar a festa. Já no cenário interno, a disputa eleitoral só deve ficar mais claro em meados do semestre. Se – como nota Póvoa –, na ausência de Lula, Ciro despontasse como uma candidatura muito competitiva, os ativos brasileiros poderiam voltar a sofrer.

Mas é improvável que nos próximos dois meses haja uma definição nítida e consistente das perspectivas eleitorais, sempre considerando que Lula não consiga – como se prevê – levar sua candidatura adiante até outubro. Assim, ainda há um tempo razoável para o otimismo dar as cartas no mercado. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/1/18, segunda-feira.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.