O forte e o frágil em Paulo Guedes

Insensatez da negação da política por parte de Bolsonaro deixou um dos seus melhores quadros, Paulo Guedes, exposto por horas a fio à artilharia pesada da oposição.

Fernando Dantas

04 de abril de 2019 | 21h23

O depoimento de Paulo Guedes na CCJ da Câmara (na quarta, 3/4/19) expôs as virtudes e as fragilidades do ministro da Economia.

Pelo lado positivo, ele defendeu a reforma com conhecimento de causa e uma dose de “garra” que falta a ministros de perfil mais tecnocrático (como recentemente comentado neste espaço). O aspecto negativo é o outro lado da moeda do positivo: Guedes não tem sangue frio o suficiente para aguentar horas a fio de agressões verbais sem perder a cabeça.

Dessa forma, é lamentável que o governo envie para o coração da batalha mais encarniçada um dos seus melhores quadros, mas totalmente desprovido da devida retaguarda.

Numa estratégia insensata que pode estar começando a ser revertida hoje (com presidentes de diversos partidos sendo recebidos por Bolsonaro), o governo optou, para efeitos práticos, por não ter uma base no Congresso.

Defender a reforma da Previdência não é sonho de consumo de nenhum parlamentar, ainda mais numa audiência pública com o ministro da Fazenda, que teve grande repercussão e se desdobrou em muitos filmetes amplamente reproduzidos nas redes sociais. Uma frase filmada de um deputado que possa ser lida como desfavorável a algum “direito” de determinado grupo ou parcela do eleitorado pode ser muito bem explorada por adversários em campanhas eleitorais vindouras.

Dessa forma, para que Guedes fosse minimamente defendido na CCJ, ou recebesse algumas perguntas do tipo “bola levantada para cortar”, era preciso um esforço de persuasão do Executivo sobre as lideranças do Congresso, e destas sobre a massa de deputados potencialmente aliados.

É o tipo de articulação que só acontece se há uma base formalizada, um time jogando junto, capaz de tomar riscos e fazer sacrifícios em nome de objetivos maiores à frente. Mesmo assim, não será tarefa fácil fazer deputados e senadores defenderem a reforma da Previdência.

O governo até agora, entretanto, optou por uma espécie de espontaneísmo como estratégia política, demonizando as moedas de troca legítimas do jogo parlamentar, abstendo-se de formar uma base, e jogando as fichas no expediente de pressionar os parlamentares pelas redes sociais.

O resultado pode ser visto na CCJ. Basicamente, o protagonismo foi de quem não tinha nada a perder, isto é, da oposição. Guedes ficou encurralado durante mais de seis horas, e a sessão acabou em confusão quando o ministro perdeu as estribeiras com uma provocação grosseira do deputado Zeca Dirceu (PT-PR).

O episódio não deve custar votos ao governo na reforma da Previdência, na visão de Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM. Afinal, todo o conflito foi com a oposição, que não irá votar a favor do governo de qualquer maneira.

Em relatório divulgado hoje, Ribeiro ressaltou, entretanto, que “seria bem diferente se o entrevero tivesse ocorrido com um deputado do tal ‘bloco da maioria’, uma espécie de centrão ampliado pela adesão do PSDB, que reúne quase 300 deputados”.

Em outro trecho, o analista nota que “tudo seria mais tranquilo, mais rápido e mais produtivo se a ‘maioria’ fizesse parte da base do governo, se fossem parceiros de Bolsonaro “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza” – para usar um tipo de metáfora que agrada Bolsonaro”.

Nesse caso, é possível que Guedes tivesse sido protegido da metralhadora da oposição com perguntas “a favor” que lhe dessem tempo para recuperar o fôlego e esfriar a cabeça.

O fundamental, contudo, é que a chave para a reforma da Previdência está com o “bloco da maioria” mencionado por Ribeiro, que são em grande parte parlamentares de centro-direita e centro, sensíveis à visão predominante no establishment econômico, financeiro e acadêmico (dos economistas) da imperiosa necessidade da reforma.

Naturalmente, esses parlamentares têm suas agendas próprias de atendimento a grupos de interesse e comunidades locais, como em qualquer democracia do mundo. A faca e o queijo estão na mão do governo para costurar a maioria necessária para aprovar uma reforma da Previdência mediana em termos de economias fiscais, desde que se dedique a fazer a política de todos os tempos, e não a demonizá-la. E é possível, sim, fazer política sem sair do campo da legalidade.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast 

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/4/19, quinta-feira.