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O grande superávit alemão

Saldo em conta corrente da Alemanha já é o maior do mundo, superando o da China. Um levantamento entre economistas europeus indica que a maioria considera que isto é um problema para a zona do euro e para a economia global, e que o governo alemão deveria agir, aumentando seus investimentos.

Fernando Dantas

01 Novembro 2016 | 17h21

Antes da grande crise global de 2008 e 2009, a China era considerada como coprotagonista do maior desequilíbrio macroeconômico global, com seu colossal superávit em conta corrente. A contraparte chinesa, evidentemente, eram os Estados Unidos, com seu enorme déficit em conta corrente. Na nova ordem econômica global, porém, a Alemanha parece ter substituído a China no papel de criar excesso de poupança na economia global. O superávit em conta corrente alemão em 2015, de 8,5% do PIB, é maior em termos absolutos do que o chinês no mesmo ano.

Recente levantamento do Centro para Macroeconomia (CFM, na sigla em inglês), do Centro para Pesquisa de Política Econômica, rede de pesquisa europeia, mostra que mais de dois terços dos economistas consultados concordam que “o superávit comercial alemão é uma ameaça para a economia da zona do euro”. E uma maioria apenas levemente menor acredita que o governo alemão deveria aumentar os investimentos públicos, como reação ao superávit externo excessivo.

Entre 2000 e 2015, a poupança doméstica alemã subiu de 20% para 30% do PIB, mas o investimento doméstico permaneceu estável em torno de 20% do PIB. Obviamente, esse resultado deriva do sucesso econômico alemão, cujas exportações subiram de 39% do PIB para 47% entre 2000 e 2015 (as importações estão em 39% do PIB) e cujo setor público saiu de um déficit de 4% do PIB em 2010 para um superávit de 1,2% em 2016.

O problema, porém, é que os parceiros do euro da Alemanha foram forçados a reduzir seus déficits em conta corrente depois da crise de 2008 e 2009 sem que a Alemanha contribuísse aumentando a demanda externa com redução do seu superávit (ou incorrendo em déficits). Como esses parceiros estão presos no arranjo da moeda única, não podem desvalorizar suas moedas em relação à Alemanha. Adicionalmente, o excesso de poupança alemão contribui para o ambiente de alta liquidez e fraca demanda no mundo rico, como notaram vários dos economistas ouvidos pelo CFM.

O FMI estimou recentemente que a taxa de câmbio alemã esteja subvalorizada em 15% a 20%, e o Tesouro americano chegou ao ponto de colocar a Alemanha numa lista de países “em monitoramento” para verificar se não fazem “práticas cambiais desleais” (ironicamente, a Alemanha não tem uma moeda própria).

Já a visão do establishment financeiro alemão sobre seu poderoso superávit externo o vê como fruto do alto nível de desenvolvimento do país e do envelhecimento da população (uma força de trabalho mais próxima à aposentadoria tende a poupar mais).

Para alguns dos economistas consultados, o superávit em conta corrente alemão é causado pelo fato de que o país é muito competitivo, mas sua moeda não pode se apreciar contra a dos seus parceiros no euro – a razão é claro, é que se trata da mesma moeda.

Entre os economistas que não veem problemas no superávit externo alemão, há argumentos como o de que a maior parte dele é contra países de fora do euro (e, portanto, não deriva de um desequilíbrio provocado pela moeda única) ou então de que a sobra de poupança em um país aumenta o financiamento potencial ao investimento em outros e não pode ser considerada um problema.

Uma parcela de 67% dos respondentes à enquete do CFM disse que o governo alemão deve aumentar o investimento público como reação aos grandes superávits em conta corrente. Um dos economistas consultados observou que a razão entre capital público e PIB na Alemanha é metade da mesma razão na Holanda. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 31/10/16, segunda-feira.