O jogo de Renan e Cunha

Renan Calheiros não retaliou o governo por retaliar. Ele e Eduardo Cunha, que presidem as duas Casas do Congresso, mostram a Dilma o estrago que podem causar para que o governo se engaje na luta pela sobrevivência política dos dois parlamentares - entrevista com o cientista político Carlos Pereira, da Ebape.

Fernando Dantas

06 de março de 2015 | 18h42

O cientista político Carlos Pereira, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV), no Rio, acha ingênua a ideia de que o presidente do Senado, Renan Calheiros, esteja simplesmente retaliando o governo – pelo fato de seu nome estar na lista de políticos envolvidos na operação Lava-jato – ao tomar decisões como a devolução da medida provisória que na prática anularia boa parte da desoneração da folha salarial. “O Renan sabe que o governo não tem responsabilidade, que os Poderes são independentes”, diz Pereira.

Para o pesquisador, Renan e Eduardo Cunha, presidente da Câmara (que também está na lista da Lava-Jato), estão simplesmente operando de acordo com uma estratégia de sobrevivência política. “Eles sabem que podem ir para o Conselho de Ética e enfrentar processos de cassação, e por isso querem um compromisso crível de que o governo vai apoiá-los para impedir que o pior aconteça”, explica Pereira.

O cientista político observa que já existem parlamentares defendendo a ideia de que todos os envolvidos na Lava-Jato que exerçam cargos de comando no Congresso retirem-se dessas funções, como colocou recentemente o deputado Chico Alencar (PSol-RJ). “Essa ideia está encontrando eco no Congresso”, nota Pereira, acrescentando que Renan e Cunha vão cobrar do governo que os apoiem para evitar que isso ocorra.

A forma de os presidentes do Senado e da Câmara forçarem o governo a lhes dar suporte, segundo o pesquisador, “é tentar fragilizar o governo e obstaculizar sua agenda, para que Dilma perceba que eles são imprescindíveis e banque a sua defesa”.

Pereira considera que esse jogo está na fase da “inflexão muscular, da mensuração de forças”, em que os dois lados, mas especialmente Renan e Cunha, tentam mostrar seu cacife – no caso dos presidentes das duas Casas do Congresso, o estrago potencial que podem causar ao governo, inclusive torpedear o ajuste fiscal num momento econômico delicadíssimo, com o risco de rebaixamento pelas agências de rating.

Na verdade, porém, o “estoque de recursos” das duas partes é frágil e volátil, na visão do cientista político, o que cria grandes incertezas em relação ao desdobramento desse processo. Assim, Pereira enxerga um jogo de interpendência entre o PMDB e seus parlamentares no topo da hierarquia do Congresso, de um lado, e o governo, do outro.

“Há fortes incentivos para o conluio e a cooperação, mas num pano de fundo de muita incerteza”.

Além de criar problemas para o governo, Renan e Cunha podem “namorar” a oposição, mas Pereira acha que esse processo não irá muito longe. Ele nota que há um grande custo político em apoiar os dois políticos suspeitos de envolvimento em esquemas de corrupção.

“Os dois poderiam tentar se salvar junto à oposição em troca do pescoço da presidente Dilma, mas não creio que a oposição vai se arriscar a pagar o custo político de apoiá-los, que deve cair mesmo no colo da presidente”, diz o pesquisador.

Ele nota ainda que o Congresso como um todo também pode ter resistências a arcar com o custo de garantir a sobrevida de Renan e Cunha, por causa do prejuízo à sua imagem junto à população, o que aumenta o desconfortável papel que o governo terá de assumir para apoiá-los.

Assim, por um lado, é um alívio para o governo que Dilma não tenha sido envolvida, com seu nome retirado da lista da Lava-Jato, mas a presidente tem pela frente a ingrata necessidade de apoiar Renan e Cunha. Pereira não creia que haja resistência relevante da parte do PT, porque se trata de uma questão de vida e morte para o partido, mas não tem dúvidas de que o suporte – se ocorrer – vai minar ainda mais a combalida popularidade presidencial. “Mas não tem jeito, eles vão ter que optar por estancar as hemorragias mais sérias”, analisa.

O pesquisador acha que, mesmo com Dilma fora da lista da Lava-Jato, o impeachment, que é fundamentalmente um processo político, não é uma carta fora do baralho para a presidente. Ele observa que se aproxima uma “tempestade perfeita” em que três dos quatro elementos tipicamente presentes em processos de impeachment já estão presentes: cenário econômico muito ruim com políticas econômicas restritivas (elevação dos juros, aperto fiscal, recessão, aumento do desemprego, inflação em alta); queda abrupta da popularidade; e manifestações populares e de grupos organizados contra o governo (caminhoneiros, a passeata marcada para o dia 15).

O quarto elemento, que ainda não aconteceu, é a perda da maioria no Congresso. Dilma provavelmente será extremamente cautelosa em relação a qualquer movimento que possa ameaçar esse último baluarte. E isso provavelmente conta a favor de Renan e Cunha. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 6/3/15, quinta-feira.

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