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O lado bom da eleição de Biden para Bolsonaro

Apesar da perda do seu ídolo internacional e do possível enfraquecimento da maré global do populismo de direita, vitória de democrata nos EUA pode melhorar cenário externo para economia brasileira e dar chance a Bolsonaro de se livrar dos seus radicais. Mas nada garante que oportunidade será aproveitada.

Fernando Dantas

09 de novembro de 2020 | 18h24

A narrativa corrente é de que a eleição de Joe Biden foi um duro golpe para Jair Bolsonaro. O presidente do Brasil perde sua grande fonte de inspiração política no plano internacional, e a derrota de Donald Trump sinaliza que a maré global do populismo de direita pode ter começado a recuar.

Com sua habitual truculência diplomática, Bolsonaro ainda (até o momento em que esta coluna estava sendo escrita) não parabenizou Biden pela vitória, insistindo em jogar fichas numa aposta que já foi derrotada.

O presidente brasileiro tende a ficar isolado internacionalmente. Na área ambiental, em particular, não é exagero pensar agora em uma aliança de americanos e europeus para pressionar o Brasil pelo descaso com a Amazônia, com reflexos negativos no agronegócio nacional.

Do ponto de vista da política interna, a derrota de Trump animou as forças que se preparam para tentar remover Bolsonaro do poder em 2022. As articulações recém noticiadas entre Sergio Moro e Luciano Huck vão nessa direção.

Pela esquerda, melhoram as chances de que haja algum entendimento em relação a unir forças em torno de um candidato moderado. Também recentemente, antes das eleições americanas, noticiou-se a reunião entre Lula e Ciro Gomes com o propósito de fumar o cachimbo da paz.

Ainda há muitas pedras no caminho, mas não há dúvida que a vitória de Biden pode inspirar tentativas de coordenação na centro-esquerda e na centro-direita no Brasil com olhos em 2022. Uma frente ampla que juntasse centro-esquerda e centro-direita, porém, permanece difícil.

De qualquer forma, a queda de Trump representa um tônico para todas as lideranças políticas brasileiras que hoje se apresentam como alternativas a Bolsonaro.

O presidente, aliás, cultivou ao máximo que pôde as inimizades, tanto em quantidade como em intensidade – o que também segue a “receita Trump” de populismo de direita, que é a de dividir o mundo entre aliados fiéis, de um lado, e inimigos jurados e traidores, do outro.

Agora, com o patrono internacional de Bolsonaro batido nas urnas, esses muitos adversários, que incluem políticos poderosos como João Doria, não devem ajudar – para dizer o mínimo – a governabilidade do presidente até as próximas eleições.

Todos os argumentos acima fazem sentido e tem o seu quinhão de verdade. Ainda assim, ao contrário da torcida dos muitos adversários de Bolsonaro, a vitória do candidato democrata também pode trazer vantagens para o presidente brasileiro.

Essa visão está sendo desenhada pela reação dos mercados globais desde que ficou claro que Joe Biden seria o 46º presidente norte-americano.

Não se trata, de forma alguma, de extrapolar a melhora excepcional dos últimos dias, na esteira da vitória de Biden, para os próximos meses e anos. Hoje, por exemplo, os ativos também estão sendo impulsionados pelas boas notícias em relação à vacina da Pfizer e BioNTech.

Mas é possível dizer que a enorme alta das bolsas e valorização das moedas emergentes após a vitória de Biden revelaram um fator de risco que talvez tivesse sido “naturalizado” pelos investidores após quatro anos de governo Trump: o caráter totalmente errático, imprevisível, belicoso e destrutivo da gestão político-econômica (e sanitária) da maior potência do planeta.

A possibilidade de mais quatro anos de Trump embutia um componente de incerteza e aversão ao risco que talvez não tivesse devidamente computado de forma consciente pelos analistas. Ainda pode e deve haver muita volatilidade de ativos nos próximos meses, mas parece que uma “espada de Dâmocles” foi removida de cima do pescoço da economia global.

Para um país emergente fragilizado do ponto de vista fiscal, como o Brasil, a perspectiva de um mundo com um importante componente de incerteza e risco removido compra tempo para o necessário ajuste.

De cara, se o real tiver uma trajetória mais fortalecida em 2021, relativamente ao que parecia estar precificado até antes da eleição americana, o Banco Central ganha fôlego para manter seu atual plano de voo. Este provavelmente levará a uma alta suave e gradativa da Selic cujo início ainda não está próximo, e não a um forte cavalo de pau já no início do ano que vem, como temem alguns analistas.

Por enquanto, permanece um grande “se”, pois assim com o dólar caiu com força em poucos dias, mudanças de sentimento e fatos inesperados podem voltar a desvalorizar com força o real.

O que se pode dizer, no entanto, é que a remoção do “risco Trump” tem cara de ser um fator fundamental que justifica uma mudança nos mercados do ponto de vista de riscos globais.

Bolsonaro também poderia “aproveitar” a vitória de Biden no cenário da política doméstica. O presidente já está assistindo a uma mudança no seu perfil de apoiadores, com aumento de simpatia por parte dos mais pobres.

Por outro lado, a derrota de Trump enfraquece globalmente a aura da militância de extrema-direita, com possíveis reflexos negativos na chamada “banda ideológica” do governo Bolsonaro. Pode ser um momento favorável para demitir ou enquadrar em novas diretrizes ministros que vieram a simbolizar o lado extremista do atual governo, como Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente.

O meio ambiente, em particular, é uma área em que Bolsonaro deveria rapidamente repaginar seu governo, se antecipando a gestões mais beligerantes do mundo rico em relação ao descaso nacional com a Amazônia.

A grande questão é: Bolsonaro vai aproveitar essas oportunidades?

Isso envolve duas frentes. Na área econômica, não deitar nos louros da melhora dos mercados, e se engajar construtivamente com o Congresso para retomar o ajuste fiscal estrutural em 2021.

Na política, seria o momento (mais um) de Bolsonaro caminhar para o centro, inclusive para tentar fechar o flanco vulnerável à centro-direita que já foi farejado por adversários como Moro e Huck.

Infelizmente, Bolsonaro parece ter um padrão de seguir mais os seus instintos políticos, quase sempre voltados à radicalização e à beligerância (e, curiosamente, à acomodação na hora de enfrentar privilégios corporativos na seara econômica), do que visões estratégicas baseadas na racionalidade.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/11/2020, segunda-feira.

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