O lado bom da pandemia

Analistas consideram que mudanças econômicas trazidas pela Covid-19 podem aumentar de forma permanente ou duradoura o crescimento potencial e da produtividade. Análises são principalmente para os EUA, mas o fenômeno pode ocorrer também em outros países.

Fernando Dantas

15 de julho de 2021 | 11h08

Há males que vêm para bem. Alguns analistas econômicos já preveem que a pandemia do coronavírus, que ceifou – e continua ceifando – milhões de vidas no mundo todo, vai acelerar o crescimento potencial e da produtividade dos países de forma duradoura ou permanente.

Análises desse teor têm sido feitas especialmente para o caso dos Estados Unidos.

Recente relatório do economista Spencer Hill, do Goldman Sachs (ver link no fim da coluna), estima um aumento de 1,3 ponto porcentual (pp) no crescimento anual da produtividade nos Estados Unidos no triênio de 2020 a 2021, em função da evolução dos modelos de negócio e da eficiência dos trabalhadores por causa de mudanças trazidas pela pandemia.

Já um relatório do JP Morgan, pelos economistas Joe Seydl e Pieter Clerger (ver link no fim da coluna), estima que o PIB potencial dos Estados possa saltar de 1,8%, pré-pandemia, para 2,25%, pós-pandemia.

Os dois relatórios explicam os diversos caminhos pelos quais a convivência com a Covid-19 pode ter contribuído para acelerar a produtividade e o crescimento potencial das economias.

Por exemplo, isso pode estar ocorrendo em setores nos quais reuniões virtuais são factíveis e em que despesas com viagens podem ser reduzidas, como serviços de tecnologia ou serviços sofisticados em geral, desenvolvimento de produtos e atacado. Hill, do Goldman Sachs, nota que esses ganhos permaneceram mesmo depois que as restrições à circulação foram reduzidas e houve retorno parcial aos escritórios.

Mesmo com a reabertura dos shopping centers, mantém-se o avanço nas compras virtuais ou pelo novo modelo de compra virtual em que se passa na loja só para apanhar o produto. Hill aponta que houve uma redução de quatro empregados (vendedores e caixas) para cada 100 no varejo (entre junho de 2021 e 2019), com efeito direto na produtividade.

Esses ganhos de produtividade, por sua vez, refletem-se no aumento das margens. A margem operacional das empresas do S&P 150 está 1,8 pp acima do nível pré-pandemia. Em negócios em que os ganhos de digitalização são mais óbvios, como serviços de tecnologia, o aumento de margens foi ainda maior.

Seydl e Clerger, do JP Morgan, consideram que a Covid apressou a adoção de novas tecnologias pelas empresas.

Eles também observam que as tecnologias que possibilitam o trabalho de casa tiveram um impulso extraordinário com a pandemia. Antes da Covid, a parcela de horas de trabalho remoto nos Estados Unidos era inferior a 5%, tendo subido a 60% no pico durante a pandemia. Pesquisas indicam que 45% do trabalho nos Estados Unidos pode ser feito de casa, e que, pós-pandemia, a proporção deve se estabilizar na faixa de 20% a 25%.

O trabalho de casa aumenta o produto potencial de vários formas, sendo algumas delas a de ampliar a participação das mulheres na força de trabalho e expandir as horas trabalhadas com a economia de tempo do transporte entre a casa e o local de trabalho.

Segundo os dois economistas, que nem toda essa economia de tempo será usada para trabalhar mais, mas parte dela ficará em lazer e tempo com a família. Assim, a economia de tempo com o trabalho de casa pode resultar não só em aumento do PIB mas também em melhora do bem-estar numa definição mais ampla.

Finalmente, há a questão da produtividade, a mais difícil de desvendar. Factualmente, o ritmo anual de aumento saltou de 1,25% pré-pandemia para 3% desde 2020.

A causa mais diretamente identificável e talvez mais influente é a mudança do consumo de serviços para bens. O crescimento da produtividade no setor de bens é maior do que no setor de serviços.

Os economistas do JP Morgan pensam que essa mudança da cesta de consumo pode ser mais duradoura, porque tem a ver com a reconfiguração residencial dos americanos para se adaptar melhor ao trabalho remoto. A construção de novas casas levando a aquisições de tudo o que elas contêm é um estímulo ao setor manufatureiro.

Mas Seydl e Clerger acrescentam que, também no setor de serviços, houve salto de produtividade, cujas explicações são mais especulativas. Algumas hipóteses são que o trabalho de casa aumente o foco individual nas tarefas e seja até positivo como etapa prévia a um brainstorm coletivo; e até que mais horas de sono, com menos tempo gasto em transporte, contribua para melhor desempenho.

Ambos os relatórios trazem muitos outros aspectos, como o impulso à automação pela Covid. Um possível aumento do produto potencial americano permitira um crescimento mais forte sem sobreaquecer a economia, reduzindo pressões inflacionárias.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/7/2021, quarta-feira.