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O medo de alta duradoura da inflação

Surge a preocupação de que inflação fique muito acima da meta por período prolongado.

Fernando Dantas

04 Fevereiro 2016 | 22h50

O regime de metas de inflação no Brasil, iniciado em 1999, atravessa a sua fase mais difícil. Rupturas do teto do intervalo de tolerância – como ocorreu em 2015 e boa parte do mercado crê que acontecerá novamente em 2016 – não são novidades na história do sistema, mas anteriormente vieram na esteira de crises agudas que produziram fortes descontroles, mas que também foram rapidamente revertidos.

Essa é a história, aliás, em que o Banco Central (BC) gostaria que todos acreditassem agora, e na qual aposta. Depois do brutal ano de ajuste em 2015, com a disparada do câmbio e a enorme elevação dos preços administrados, a inflação cai rapidamente em 2016 e termina 2017 em torno do centro da meta, de 4,5%.

O mercado, porém, não corrobora essa visão benigna. A mediana das expectativas do IPCA para 2016 e 2017 está em, respectivamente, 7,26% e 5,8%. Na verdade, há quem tema números até piores do que estes, num cenário que poderia ser descrito como um desvio duradouro da inflação para níveis muito acima da meta, e no qual o atual regime poderia perdurar mais como um ritual vazio do que como um mecanismo efetivo de controle das expectativas pela autoridade monetária. Eventuais novas rodadas de forte desvalorização cambial, evidentemente, reforçariam as probabilidades deste cenário.

Um economista, que acompanha minuciosamente a política monetária, observa que a crença de que o problema atual é a forte inércia da inflação é equivocada. O problema, para ele, é que “a política de juros do Banco Central é inercial”, o que torna a inflação mais persistente. A fonte nota que uma inflação em alta, levando a reajustes mais frequentes, não deveria em princípio reforçar a inércia, que deriva da estabilidade da variação dos preços.

Assim, a persistência inflacionária estaria sendo causada pela percepção de que há um descompasso entre o discurso do BC – que determina prazos para a convergência da inflação à meta, mas que não são cumpridos nem ensejam um curso de ação coerente com as palavras – e a sua ação. Esta, por sua vez, consiste em ciclos muito longos e gradativos de aperto monetário, que jogam cada vez mais para longe o horizonte da desinflação.

Dessa forma, diz o economista, “a Selic pode até subir menos do que subiria numa política monetária mais decidida, mas ela se mantém em patamares mais altos por mais tempo, e sem que a inflação convirja para a meta”. Ele considera que a sua visão é até “uma boa notícia” para o Banco Central, no sentido de que se a resistência da inflação fosse de fato inercial, mesmo uma política monetária mais agressiva teria dificuldade em combatê-la.

Num segundo front, outro economista, especializado em mercado de trabalho, também traz argumentos que apontam para entraves à queda da inflação derivados de políticas públicas. Ele nota que a institucionalidade criada para defender os ganhos das camadas pobres e médias da população, como as diversas formas de transferência e a política de reajustes reais do salário mínimo (que indexa boa parte daqueles programas), acaba fazendo com que a renda caia menos para um mesmo nível de queda de PIB e aumento do desemprego – comparado com recessões passadas. “Isso faz que precisemos provocar recessões bem mais profundas e desemprego bem maior para controlar a inflação”, ele diz. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 2/2/16, terça-feira.