O mercado e o impeachment

Processo de Dilma pode atiçar ainda mais tensão social em meio ao caos político e à queda da economia. Mas há quem ache melhor enfrentar a travessia e encurtar o tempo até algum desfecho - em que a presidente saia ou fique, mas fortalecida pela saída do impeachment de cena.

Fernando Dantas

04 Dezembro 2015 | 21h52

A reação inicial favorável do mercado financeiro, na quinta-feira (na sexta-feira, 4/12, a bolsa recuou 2,23%), à notícia de que Eduardo Cunha, presidente da Câmara, autorizou a abertura do impeachment da presidente Dilma Rousseff pode ser lida como uma volta ao estado de espírito da campanha eleitoral. Nessa visão, os ativos valorizam-se com a expectativa da abreviação do governo de Dilma, e desvalorizam-se com a perspectiva oposta.

Na atual conjuntura, porém, é uma interpretação menos fácil de entender. Por um lado, ao contrário do que se imaginava, Dilma optou no seu segundo mandato por uma política econômica ortodoxa e liberal, ao gosto do mercado – e muito parecida com a que investidores e operadores imaginavam que seria a de Aécio Neves, caso o candidato tucano tivesse sido eleito.

É possível alegar, entretanto, que o mercado corretamente identifica a fragilidade política da presidente e a sua incapacidade de tocar a sua própria agenda. Neste sentido, a sua substituição pelo vice-presidente Michel Temer poderia dar novo impulso ao ajuste ortodoxo, e quem sabe criar as condições para que este seja concluído e construa as bases de um novo ciclo de crescimento.

Essa visão é reforçada pela recente divulgação do documento “Uma Ponte para o Futuro” pelo Instituto Ulysses Guimarães, ligado ao PMDB, que esboça um programa fortemente ortodoxo e liberal. Temer foi um dos peemedebistas que, de forma explícita e emblemática, endossou o documento.

É uma história que faz sentido, mas que tem alguns problemas significativos. O primeiro é que, entre um governo Dilma e um governo Temer, encontra-se um período de transição que tem tudo para ser dramático e traumático, e que encontrará a economia brasileira no auge do ciclo depressivo e ainda com fortes vulnerabilidades (se bem que o ajuste externo já está em pleno curso). A perspectiva de início iminente do ciclo de alta de juros nos Estados Unidos, em que pese a ideia geral de que será suave e não deverá provocar solavancos, adiciona um grau a mais de risco ao cenário doméstico.

Um experimentado político tucano paulista comentou recentemente que a mídia, os formadores de opinião e o mercado financeiro podem estar subestimando o potencial de turbulência social da “guerra do impeachment”.

Ao contrário do caso de Fernando Collor, um político que surgiu do nada e cuja base social e política efetiva era mínima, Dilma tem por trás de si o PT e sua história. Trata-se do partido mais orgânico em termos de militância, com grande e quase única penetração em sindicatos, associações e todo o tipo de organização comunitária.

Essa base petista, cabisbaixa com o atoleiro econômico e os escândalos associados ao seu partido, não está morta. Na visão daquele político, ela deve se organizar e reagir energicamente a quaisquer movimentos de rua pela derrubada de Dilma, tendo como maestro Lula, o mais carismático personagem político das últimas décadas. Assim, as chances de que conflitos de rua e conturbações sociais graves joguem ainda mais combustível na fogueira do desarranjo econômico e político são altas.

Mas há ainda, finalmente, a abordagem de que, por mais ameaçadora que seja a travessia, ela tem que ser feita, porque o custo da atual paralisia decisória tornou-se alto demais. Assim, o acatamento do pedido de impeachment seria um primeiro passo num processo que ou interrompe o mandato de Dilma ou, com o lado governista prevalecendo, tira esta possibilidade da mesa, e reforça a presidente. Isto, por sua vez, poderia restaurar em parte a governabilidade.

O padrão inicial da reação do mercado à notícia da decisão de Cunha, com alta de ações de estatais (que teoricamente seriam beneficiadas com o PT fora do poder), não deu muito a impressão de que a última visão descrita acima fosse a que motivou investidores e traders. Por outro lado, fontes da política dizem que no Senado essa ideia – de que é melhor encurtar o tempo até o desfecho da novela do impeachment (seja favorável ou não à Dilma) – ganha força. Já a Câmara reproduz mais o clima de “Fla-Flu” das ruas, com a oposição determinada a fazer de tudo para derrubar Dilma (e por isso avaliando, inclusive, se não seria melhor dilatar o processo, para jogar o momento decisivo para um momento futuro em que a recessão estará batendo com ainda mais força no cotidiano dos brasileiros) e a base governista fiel disposta a defendê-la com unhas e dentes.  (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/12/15, sexta-feira.