O mercado e o “risco” de Senado democrata

O mercado já teve muitas narrativas sobre os efeitos econômicos do predomínio democrata nos Estados Unidos, inclusive a de que um Senado de maioria republicana poria um freio à ala esquerda do partido de Biden e seria positivo para os ativos. Mas entre a narrativa e o que de fato ocorre, vai uma distância.

Fernando Dantas

06 de janeiro de 2021 | 11h07

As eleições hoje (a coluna foi publicada em 5/11, terça, dia da eleição) em segundo turno de duas cadeiras do Senado pela estado da Geórgia, nos Estados Unidos, são decisivas para definir os rumos da política norte-americana pelo menos nos próximos dois anos.

Dois senadores republicanos, David Perdue e Kelly Loeffler, enfrentam, respectivamente, os democratas Jon Ossoff e Raphael Warnock, que, se ganharem, tirarão as cadeiras dos dois primeiros.

Tal como a situação está hoje, há, para a composição que se inicia em 2021, 50 senadores republicanos e 48 democratas (dois desses, na verdade, são independentes, mas votam com os democratas).

Se Ossoff e Warnock vencerem, haverá um empate de 50 a 50. Porém, nesse caso, o voto de minerva por lei é do(a) vice-presidente dos Estados Unidos, no caso, a democrata Kamala Harris. Portanto, se os dois democratas vencerem a eleição de hoje, o partido do presidente Joe Biden terá maioria na Câmara e no Senado dos Estados Unidos.

Se os democratas não ganharem as duas cadeiras, haverá maioria republicana no Senado.

Logo após as eleições de novembro, havia a visão de que a chance de os desafiadores democratas na Geórgia tirarem as cadeiras dos senadores republicanos era muito pequena.

Agora, porém, pesquisas apontam resultados apertados nos dois pleitos, e, portanto, voltou à pauta a possibilidade de um Executivo democrata secundado por maioria governista nas duas casas do Congresso. O que, naturalmente, dá mais poder a Biden e ao Partido Democrata de imporem sua agenda de governo.

Após a vitória de Biden, ganhou força a narrativa de que o evento acabou sendo positivo para os mercados – que, em média, melhoraram com força de lá para cá – porque tudo indicava que o novo presidente não teria maioria no Senado.

Assim, desenhava-se uma espécie de cenário dos sonhos. Por um lado, o errático, imprevisível e belicoso Trump saía, dando lugar a Biden, um político bem mais centrista e moderado.

Por outro, a temida (pelos mercados) ala esquerda dos democratas seria contida pela maioria dos republicanos no Senado.

Essa ala esquerda tem como alguns dos expoentes os senadores Bernie Sanders (que, como senador, é independente) e Elizabeth Warren, que disputaram com Biden a candidatura democrata em 2020, e a deputada estelar Alexandra Ocasio-Cortez, conhecida pela sigla AOC.

O suposto temor dos mercados, no caso de uma vitória total dos democratas (incluindo Senado), é uma agenda pesada de taxação, regulação e intervenção na economia, com destaque para algumas áreas como saúde e meio-ambiente – nesta última, o chamado “Green New Deal” é uma agenda de combate ao aquecimento global e à desigualdade econômica com forte teor intervencionista, segundo seus críticos.

Acontece, entretanto, que a relação de toda essa narrativa com o desdobramento real dos fatos desde as eleições do ano passado é ambígua.

Durantes as primárias, existia a visão de que uma vitória democrata, especialmente se o(a) candidato(a) do partido fosse Sanders ou Warren, seria negativa para os mercados.

Foi com alívio que os investidores acolheram a vitória de Biden nas primárias. Ainda assim, porém, ficou claro que o presidente eleito só conseguiu se firmar como candidato do partido porque abriu bastante espaço para a esquerda – e seu secretariado de certa forma confirma essa ideia.

Portanto, mesmo com Biden confirmado como candidato, os analistas ficaram com o pé atrás. E foi de fato uma surpresa que, eleito o democrata, os mercados entraram em alta.

Foi nesse contexto que surgiu a tese do “cenário ideal”, com um Executivo democrata e um Senado provavelmente republicano (a chance de vitória dos dois democratas na Geórgia no segundo turno era vista como remota), para contrabalançar e frear os ímpetos esquerdistas do governo Biden.

Agora, porém, caso os democratas tomem as duas cadeiras dos republicanos na Georgia, conquistando maioria no Senado, será que os mercados vão “devolver” todo o otimismo pós-eleitoral?

Um conhecido profissional do mercado brasileiro, com ampla experiência internacional, explica que essa é uma pergunta muito difícil de responder, mas acrescenta que é preciso tomar as narrativas de mercado com um grão de sal.

As dificuldades são várias. Quanto ao resultado em si da eleição, ele nota que o pleito de novembro indicou um viés democrata nas pesquisas, e que os dois incumbentes republicanos na Geórgia tem por detrás uma tradição favorável ao seu partido no estado. A vitória de Biden sobre Trump na Geórgia foi por margem bem pequena e, aliás, o telefonema comprometedor do presidente derrotado, pedindo que se achassem votos a seu favor, se referiu justamente a esse estado.

Um primeiro fator, portanto, é que ainda não está nada clara a real chance de duas vitórias dos democratas na Geórgia.

O gestor nota que o mercado, sequioso por narrativas explicativas dos seus movimentos, compôs uma interpretação para a queda de ontem pela qual setores mais sensíveis à regulação foram mal, enquanto segmentos ligados à agenda ambiental, como empresas de painéis solares, tiveram bom desempenho.

O que traduziria reação ao aumento das chances de uma dupla vitória democrata no segundo turno senatorial na Geórgia.

Óbvio que essa hipótese sobre o mercado neste início de 2021 se soma ao medo da nova mutação do coronavírus e de problemas logísticos que atrasem a vacinação, que claramente vem afetando negativamente os ativos.

Uma outra possibilidade, diz a fonte, é que o mercado não reaja tão mal assim no caso de um Senado democrata.

Ele nota que será uma maioria muito apertada, de apenas um voto, e que há senadores democratas centristas, até mesmo conservadores em alguns temas, que não irão embarcar obedientemente numa eventual agenda muito à esquerda do governo Biden.

Ele rememora também que, quando o mercado reagiu bem à vitória de Biden, outra explicação é que, com os democratas, o novo pacote de estímulo fiscal, para combater os efeitos contracionistas da pandemia, será mais robusto.

“Havia o discurso de medo de regulação e impostos com os democratas, mas o mercado gosta de estímulo fiscal e parece ter reagido a isso”, ele diz.

Em suma, talvez seja no mínimo prematuro, para profissionais de mercado, se angustiar com a possibilidade de um Senado norte-americano com maioria democrata.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/11/2020, terça-feira.

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