O mercado quer impeachment

Numa volta ao padrão das eleições de 2014, os ativos brasileiros voltaram a se valorizar com a perspectiva de saída da presidente Dilma de Rousseff, e vice-versa. Percepção é de que nada é pior do que a paralisia política atual. Será que o mercado subestima a turbulência que o próprio processo de impeachment pode trazer?

Fernando Dantas

10 Dezembro 2015 | 18h04

O mercado financeiro brasileiro parece ter voltado ao padrão vigente nas eleições de 2014: melhora com notícias favoráveis ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, e cai com notícias desfavoráveis. Não foi suficiente, portanto, que Dilma tenha perpetrado um grandioso estelionato eleitoral, e – em flagrante contradição aos compromissos de campanha – tenha chamado para ministro da Fazenda Joaquim Levy, o protótipo de policy-maker respeitado e admirado pelo mercado. Ainda assim, investidores e operadores torcem pela queda da presidente.

Essa volta do mercado ao padrão de 2014 parece, em princípio, passar por cima de algumas dificuldades um tanto óbvias do que seria um processo de impeachment que destituísse Dilma. A travessia pode ser relativamente demorada e bastante sangrenta. Dilma e o PT, ao contrário do presidente Collor quando sofreu seu impeachment, tem uma base social ampla e extremamente aguerrida. Militantes, sindicatos, movimentos sociais e associações não vão assistir impassíveis a queda da presidente num processo iniciado e tocado por Eduardo Cunha – com todas as acusações que pesam contra ele – e que tem como principal peça de acusação por enquanto não um flagrante caso de corrupção, mas o descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Um processo de impeachment que pareça ilegítimo para uma parte substancial, mesmo que minoritária, do eleitorado pode aprofundar ainda mais a polarização no País e criar uma atmosfera muito pesada para o novo governo, que bem possivelmente encontrará um adversário temível no ex-presidente Lula, como carismático chefe da oposição. Ao longo da travessia, o Brasil pode sofrer novos rebaixamentos de rating e perdas de grau de investimento, o que deixará a economia ainda mais fragilizada e o desafio fiscal de curto, médio e longo prazo ainda mais desesperadoramente difícil.

Apesar de todos esses problemas, participantes do mercado com quem a coluna conversou parecem convergir para a ideia de que, ainda assim, o impeachment de Dilma será melhor do que a continuação do seu mandato até 2018.

Como um deles explicou, o mercado reage não necessariamente à melhora de um novo governo, mas sim ao que percebe como o fim da contínua piora caso Dilma permaneça. Ele nota que as recentes altas da bolsa não necessariamente significam investidores comprando, mas podem derivar também da desmontagem de posições vendidas – que são, na prática, apostas em que a situação continuará a piorar.

A visão do mercado é de que Levy tornou-se inoperante, por não conseguir fazer prevalecer suas visões dentro do governo. Assim, a continuidade de Dilma significa singrar na inércia, que, nas palavras do sócio de uma gestora, “é algo que vai nos levar para lugares cada vez piores, com mais dívida e talvez até dominância fiscal”.

As batalhas do impeachment têm mostrado ao mercado que o nó político é ainda mais cego do que se pensava. O governo não consegue juntar nem 200 votos para defender-se, o que torna a perspectiva de passar as medidas do ajuste fiscal e reformas estruturais impopulares uma virtual impossibilidade.

Por outro lado, na visão de alguns operadores, um eventual governo Temer (pressupondo que seja ele mesmo que assuma, com um impeachment que não invalide a chapa eleitoral vencedora em 2014) poderia dar a partida com certo apoio da maioria de 2/3 que teria acabado de destituir Dilma. Se o vice-presidente abrisse mão de se recandidatar em 2018 (um enorme “se”), seria até mais fácil fazer uma espécie de governo de união nacional, que tocasse com sucesso uma agenda de reformas estruturais impopulares que dificilmente seria sacramentada nas urnas.

O forte apoio de Temer ao recente documento liberal e ortodoxo da Fundação Ulysses Guimarães (ligada ao PMDB), “Uma Ponte para o Futuro”, seria um indicativo de que o vice-presidente poderia tentar fazer um governo de reformas. No mercado, lembra-se do governo pós-impeachment de Itamar Franco, uma personalidade política de início tida como folclórica e paroquial, mas que acabou viabilizando o maior ciclo de reformas da história brasileira das últimas décadas, ao nomear Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda e partir para o Plano Real.

Hoje, aliás, bem mais do que no Plano Real, existe um consenso técnico amplo e prescrições e diagnósticos minuciosos sobre o que o Brasil tem a fazer, dos quais só discordam uma parte dos economistas heterodoxos. Mesmo parcela dos desenvolvimentistas endossa o ajuste fiscal e reformas estruturais como a previdenciária. Assim, apenas a liderança política estaria faltando, e o impeachment traria mais chances de que este elemento surgisse do que a continuidade do mandato de Dilma.

São ponderações que, mesmo com inegável lógica interna, ainda parecem muito otimistas diante da imprevisibilidade típica das interações entre a política e a economia. Ainda assim, parece ser a visão de quem aposta dinheiro no que pensa. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 10/12/15, quinta-feira.