O mistério do deflator e do IPCA

Brasil apresenta uma discrepância entre o IPCA, índice de preços ao consumidor, e o deflator do PIB que não encontra paralelo em outros países. Implicações econômicas desse fenômeno são muito importantes.

Fernando Dantas

08 de fevereiro de 2017 | 00h29

A divergência sistemática entre o deflator do PIB e o IPCA é um tema bastante técnico, mas com implicações muito relevantes para a política econômica. Entre 1996 e 2015, o deflator do PIB andou em média 1,4 ponto porcentual (pp) por ano acima do IPCA.

Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV, que vem pesquisando o tema, coletou dados recentemente que sugerem que uma diferença tão grande entre os dois índices é uma “jabuticaba”, isto é, algo muito particular do Brasil.

Analisando um grupo de nações avançadas naquele mesmo período, de 1996 a 2015, ele encontrou uma variação média anual a favor dos índices de preço ao consumidor (IPC) de 0,3 pp, e uma variação mediana na mesma direção de igual tamanho – isto é, a defasagem é muito pequena, e corre na direção contrária da que ocorre no Brasil.

Já quando avaliou um grupo de cinco nações – Austrália, Rússia, Chile, Colômbia, México e África do Sul –, Borges verificou que, na média, o deflator correu 0,5 pp acima do IPC, e, em termos medianos, correu 0,2 pp abaixo. Considerando-se os dois tipos de medida, pode-se dizer que as discrepâncias não indicam um desvio sistemático e relevante numa determinada direção.

No caso desses cinco países selecionados como uma espécie de “grupo de controle”, pesou a importância das commodities em suas economias, principalmente, e o fato de quase todas serem economias de renda média, como o Brasil. O recente ciclo de alta das commodities, que afeta o deflator do PIB mas não tem efeitos diretos sobre o IPC (as pessoas não consomem minério de ferro ou grãos de soja, embora haja efeitos indiretos, maiores ou menores, a depender da matéria-prima), é normalmente visto como parte da explicação de por que o deflator do PIB correu acima do IPCA no Brasil nas últimas duas décadas.

Borges também constatou que, em uma lista de 37 países avançados (a maioria) e emergentes para o qual conseguiu os dados, houve em média uma diferença de 0,2 pp entre o IPC e o deflator do consumo no PIB, em favor do primeiro, no período entre 1997 e 2014.

Nessa comparação, o Brasil está na minoria dos dez países em que, nesse período, o deflator do consumo do PIB andou na frente do IPC. Porém, em quase todos os casos a diferença foi minúscula – em cinco deles, não passou de 0,1 pp, e a maior diferença (com exceção do Brasil) foi a da África do Sul, onde o deflator correu em média 0,5 pp à frente do IPC entre 1997 e 2014.

O Brasil, porém, novamente é discrepante. No mesmo período, o deflator do consumo do PIB teve uma trajetória média de 1,2 pp acima do IPC. O resultado da maioria dos 37 países – com uma pequena defasagem, inversa à do Brasil, entre os dois indicadores –  é o que mais seria de se esperar. A razão é que o deflator do consumo do PIB corrige o chamado “viés de substituição” normalmente presente nos IPCs – isto é, quando um preço sobe, há uma tendência a que se reduza o consumo daquele produto, o que os índices de preço ao consumidor, por questões metodológicas, não captam adequadamente.

Entender a diferença entre as trajetórias do IPC e dos deflatores do PIB no Brasil é importante por vários motivos. Um deles é que, caso a tendência seja mantida, isto alivia a trajetória da dívida pública, já que o IPCA é um parâmetro para a elevação das despesas, enquanto o deflator do PIB infla boa parte da base tributária. Adicionalmente, se o IPCA estiver distorcendo a inflação para baixo, isto significa que o juro real no Brasil é menor do que se pensava. Já se o deflator estiver superestimado, a taxa de crescimento do PIB nominal brasileiro tem sido maior do que pensa. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/2/17, segunda-feira

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