O mistério do PIB perdido

Um ponto porcentual, ou metade, da "surpresa" do baixo crescimento anual do PIB brasileiro nos últimos anos não é explicado pelas causas externas e internas investigadas por vários estudos. Os economistas Samuel Pessôa e Bráulio Borges têm visões bem diferente sobre o "mistério do ponto porcentual de PIB perdido".

Fernando Dantas

17 Dezembro 2014 | 00h39

Uma das características marcantes da forte desaceleração da economia brasileira desde 2011 é que ela foi surpreendente. Repetidamente, as estimativas de expansão do PIB iam recuando ao longo de cada ano, sendo sempre bem mais altas no início. Diversos estudos já foram feitos sobre esse fenômeno de frustração do crescimento, que atingiu também outras economias latino-americanas e emergentes. Economistas brasileiros e do FMI já se debruçaram sobre a questão.

De forma muito resumida e simplificada, pode-se dizer que, no caso brasileiro, a surpresa negativa no crescimento entre 2011 (inclusive) e 2014 foi de 2% ao ano. Uma primeira forma de abordar este debate é tentar determinar quanto da decepção deveu-se a causas externas e quanto a problemas internos. No primeiro caso, entrariam fatores como desaceleração de economias globalmente importantes, como Estados Unidos, Europa e China e a queda dos termos de troca dos países emergentes, entre outros. Do lado interno estariam fatores como esgotamento de ciclos de crédito ou pressões no mercado de trabalho devido a razões demográficas.

As investigações já realizadas sobre a surpresa do baixo crescimento no Brasil conseguem encontrar explicações externas ou internas para aproximadamente metade do efeito. Os estudos variam um pouco ao distribuir estes 50% entre fatores externos e internos: em alguns deles, a primeira categoria fica com 30% e a segunda com 20%; noutros, ocorre aproximadamente o inverso.

Uma discussão relevante, porém, é tentar entender o que pode explicar os 50% adicionais da surpresa na desaceleração brasileira. Neste ponto, duas posições nitidamente distintas podem ser tipificadas na reflexão de dois economistas que vêm debatendo entre si exatamente essa questão. Um deles é Samuel Pessôa, sócio da gestora Reliance, pesquisador associado do Ibre/FGV e que assessorou o candidato tucano Aécio Neves na campanha. O outro é Bráulio Borges, economista da consultoria LCA.

Pessôa acha que o ponto porcentual (50% de dois pontos porcentuais) perdido de crescimento ao ano desde 2011 por razões desconhecidas deve-se principalmente a uma causa interna que é praticamente impossível de medir: a deterioração da qualidade da política econômica.

Crítico contumaz da chamada nova matriz econômica – ou “ensaio nacional-desenvolvimentista”, como prefere chamar –, Pessôa considera que a mistura de flexibilização do tripé macroeconômico com aumento do dirigismo estatal desorganizou a economia brasileira e afugentou o investimento, explicando por que a desaceleração foi além daquela que pode ser compreendida a partir de fatores mensuráveis.

Borges não nega que falhas de política econômica possam ter tido alguma influência na desaceleração, mas acha que elas são muito sobrepujadas pelo que chama de “erros de medição”. Para o economista da LCA, o ponto porcentual misterioso explica-se basicamente pelo fato de que, por questões metodológicas, as Contas Nacionais deixaram de contabilizar a maior parte desta fatia adicional de crescimento.

Isto aconteceu por conta de dois processos simultâneos, e mutuamente influentes. O primeiro deles é a confecção das Contas Nacionais na sua medição anual, que incorpora pesquisas estruturais anuais, em setores com indústria, construção, serviço e comércio. Em função da complexidade e do tempo gasto em deixar prontas estas pesquisas, a série anual do PIB habitualmente tem uma defasagem de dois anos.

O problema, porém, é que o último PIB anual divulgado foi o de 2009, e não o de 2012, como deveria ser. A maior parte das pesquisas estruturais necessárias ao cálculo do PIB anual nos anos subsequentes já foi divulgada, mas o IBGE ainda não as incorporou às Contas Nacionais anuais. Borges fez simulações incorporando essas pesquisas estruturais e chegou a resultados de crescimento melhores do que os apontados pela sucessão de Contas Nacionais trimestrais divulgadas nos últimos anos – das quais sai o resultado do PIB de cada ano, em bases provisórias.

Recomendações da ONU

O segundo fator que pode mudar a medição do PIB tem a ver justamente com o motivo pelo qual o IBGE está atrasando a incorporação das pesquisas estruturais às Contas Nacionais anuais. A razão é que o corpo técnico está profundamente envolvido com a revisão metodológica conhecida como Sistema de Contas Nacionais – referência 2010. Trata-se de adaptar as Contas Nacionais brasileiras ao chamado “System of National Accounts” (SNA) 2008, que é um conjunto de normas estabelecido pela ONU naquele ano. No Brasil, a revisão da série irá retroativamente até 1995.

A principal mudança prevista pela SNA, a ser adotada pelo Brasil, é a inclusão das atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) na formação bruta de capital fixo (FBCF), que simplificadamente são os investimentos nas Contas Nacionais. Mas há muitas outras mudanças, como considerar a prospecção mineral como investimento e passar alguns setores da indústria para os serviços, caso do ramo editorial.

“Os países que já implantaram o SNA tiveram revisão para cima tanto do tamanho do PIB quanto do crescimento nos últimos anos”, nota Borges, que crê que o mesmo ocorrerá no Brasil.

Ele diz que estão previstos pelo IBGE para março do próximo ano tanto a inclusão das pesquisas estruturais nas Contas Nacionais anuais até 2012 quanto o lançamento do Sistema de Contas Nacionais – referência 2010. Borges crê que os dois processos vão melhorar as feições recentes do PIB brasileiro.

Ele frisa que é muito difícil fazer um cálculo preciso, mas se arrisca a prever que, com a conclusão dos dois processos, o tamanho do PIB brasileiro deve ficar 6% a 7% maior, e que o crescimento médio de 2011 a 2014 deve saltar de 1,6% para 2,5%. Se isso for verdade, uma alta adicional anual de 0,9 ponto porcentual de crescimento responderia por praticamente todo o ponto porcentual “misterioso” de decepção de crescimento no governo Dilma. E já a influência da má condução da política econômica, tão enfatizada por Pessôa, teria um papel muito mais restrito.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 15/12/14, segunda-feira.