O “neoliberalismo progressista” já era?

Esquenta a discussão sobre se os democratas devem partir para uma candidatura mais esquerdista nas eleições norte-americanas de 2020, como a do senador Bernie Sanders. O economista Brad DeLong, um democrata centrista e pró-mercado, crítico de boa parte das propostas de Sanders, diz que é "hora de passar o bastão para nossos colegas de esquerda (dentro do Partido Democrata)". Nesta coluna, tento explicar a discussão.

Fernando Dantas

06 de março de 2019 | 21h35

Com o anúncio de que o senador democrata Bernie Sanders vai tentar novamente a nomeação do seu partido para concorrer à presidência dos Estados Unidos em 2020, um relevante debate vem ocorrendo entre os apoiadores do Partido Democrata.

Sanders é um esquerdista, e nada tem a ver com a corrente centrista do partido que levou Bill Clinton e Barack Obama a ganharem dois mandatos presidenciais cada um. Muitos observadores consideram que, para Trump e os republicanos, enfrentar um candidato com posições mais radicais, como Sanders, é uma vantagem.

Na última (e talvez única) vez em que um candidato democrata à presidência defendeu uma plataforma marcadamente esquerdista, com George McGovern em 1972 contra Nixon, o partido sofreu uma derrota acachapante.

Hoje, porém, essa sabedoria convencional vem sendo questionada, e até por vozes insuspeitas.

Brad DeLong é um economista da Universidade da Califórnia em Berkeley, e muito ativo no debate político-econômico norte-americano. Ele trabalhou na equipe da Secretaria de Tesouro dos Estados Unidos durante o governo Clinton, e se autointitula um “democrata Rubin”, em referência ao ex-Secretário do Tesouro Robert Rubin.

Rubin, um ricaço do mercado financeiro, foi a epítome da aliança entre os centristas do Partido Democrata com o establishment financeiro e empresarial nos anos 90. A visão, por alguns conhecida como “terceira via” (que inclui Tony Blair e FHC), era ter liberalismo e privatismo na economia como base para um robusto crescimento econômico, e utilizar a bonança para uma visão mais social e progressista das políticas públicas – mas sempre com um olho na questão fiscal e na eficiência.

DeLong se coloca nesse campo, mas diz que agora é hora de “passar o bastão para nossos colegas da esquerda (dentro do Partido Democrata)”. Isto é, para políticos como Sanders ou a estreante e estelar deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez (AOC).

Em uma interessantíssima entrevista ao jornalista Zack Beauchamp, do site Vox, DeLong explica por que ele defende a passagem de bastão para a esquerda do Partido Democrata.

Para início de conversa, fica claro que não se trata de uma conversão. O economista até admite que algumas políticas do que chama de “neoliberalismo de esquerda” (talvez fosse mais claro definir como “neoliberalismo progressista”) efetivamente falharam ou produziram resultados muito aquém do previsto. No entanto, no conjunto da obra, o pesquisador ainda defende uma centro-esquerda que busque seus objetivos sociais com políticas públicas preferencialmente pró-mercado.

O problema, diz DeLong, é que os neoliberais de esquerda falharam 100% na estratégia política. A ideia era não só a de defender a plataforma econômica e social da terceira via, mas também fazer algumas concessões específicas aos republicanos, de forma a criar uma espécie de consenso centrista em alguns temas fundamentais.

Mas deu errado. O Partido Republicano se radicalizou, deu uma guinada à direita e partiu para uma política de terra arrasada em relação a qualquer proposta democrata, fazendo questão de misturar ao máximo e tornar indistinguíveis democratas centristas, como Obama, ou esquerdistas, como Sanders.

Numa das melhores passagens da entrevista para Beauchamp, DeLong observa que Obama chegou ao poder trazendo a política de saúde de Mitt Romney, a política de clima de John McCain e a política externa de George H.W Bush (o pai). Mas esses três republicanos, seus aliados e os Partido Republicano em geral nunca moveram uma palha de reconhecimento a esse esforço de procurar um terreno comum, tendo sido sequestrados pela radicalização do partido que culminou com a eleição de Trump.

Dessa forma, para DeLong, tornou-se simplesmente impossível tocar uma agenda de terceira via no clima político atual. A melhor alternativa para os democratas centristas, portanto, é ceder o protagonismo para a esquerda do partido, apoiá-la e, na medida do possível, tentar influenciá-la no sentido de corrigir as ideias e propostas mais obviamente erradas.

Mike Konczal, pesquisador do Roosevelt Institute, reagiu à entrevista de Delong a Beauchamp num artigo em que sustenta que os erros do neoliberalismo de esquerda não foram apenas políticos, mas também fundamentalmente econômicos.

Basicamente, ele argumenta que as políticas neoliberais dos anos 90, ao contrário do que sustentavam seus proponentes, não aceleraram o crescimento econômico – isto é, não aumentaram o bolo que depois era para ser dividido.  No fim, o que se teve foi um mundo de menor crescimento, mais desigualdade e menor mobilidade social (Konczal apresenta dados para sustentar seus argumentos).

Adicionalmente, a desregulamentação iria tornar a cena empresarial mais dinâmica e competitiva, mas na verdade caiu o número de empresas iniciantes, os trabalhadores estão mais presos aos seus empregos e hoje há maiores margens, maiores lucros (com taxas de juros mais baixas) e menos investimento.

Assim, na visão de Konczal, haveria razões política e econômicas para se buscar “um novo conjunto de ideias” na esquerda.

Com o “benefício” de assistir da América Latina décadas de protagonismo do gênero de “ideia nova” – isto é, novas roupagens para o velho populismo – que parece despontar dos discursos de Sanders e AOC, é difícil não reagir com um grão de sal ao posicionamento de DeLong e Konczal.

Mesmo porque, de forma discreta e pragmática, os bem-sucedidos países escandinavos trilharam a terceira via a partir dos anos 90, liberalizando a economia (com exceção do mercado de trabalho, em que se caminhou bem mais devagar) em quase tudo que tivesse a ver com eficiência, e ajustando seus sistemas de bem-estar social na direção da sustentabilidade fiscal. Hoje estão no topo da lista dos índices de felicidade, baseados em pesquisas de opinião.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast 

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/3/19, quarta-feira.

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