O nível é de grêmio estudantil

Documento sobre novo "projeto nacional de desenvolvimento" das fundações dos cinco principais partidos de oposição mostra que a esquerda brasileira faz questão absoluta de não aprender nada e continuar repetindo os erros de sempre.

Fernando Dantas

23 Fevereiro 2018 | 19h00

As fundações ligadas ao PT, PDT, PSol, PSB e PCdoB lançaram na terça-feira (20/2) um manifesto pré-eleitoral em que defendem um “novo projeto nacional de desenvolvimento”. O documento é um atestado de como a esquerda brasileira parou no tempo e recusa-se terminantemente a qualquer autocrítica e modernização.

A linguagem resvala para o tom panfletário de grêmio estudantil frequentemente. Aprende-se no texto sobre “uma nova ordem neocolonial através da qual (o capitalismo hegemonizado pela grande finança) açabarca a riqueza das nações e impõe amarras e políticas que negam o direito dos países da periferia e semiperiferia do centro capitalista de se desenvolverem autonomamente”.

Mais adiante, exorta-se o Brasil a “vigorosamente repelir a tentativa das grandes potências capitalistas de subordinarem o nosso país aos ditames de uma ordem neocolonial”.

Pergunte-se à China e à Índia, países gigantes que experimentam o crescimento econômico sustentável mais rápido já registrado na história humana, sobre essas amarras neocoloniais que impedem a periferia de se desenvolver.

Mas fora a retórica oca e surrada dos chavões da esquerda antiga, o documento é revelador também por fazer questão de reafirmar orgulhosamente todos os piores erros que na vida real conduziram ao desastre final da experiência do PT no poder.

Defasado, o manifesto diz que “questão essencial para o país é superar a recessão e retomar o crescimento”. A recessão já foi superada, mas os signatários ainda assim querem aplicar a receita fracassada da nova matriz econômica: aumentar o papel do BNDES e dos bancos públicos no financiamento privado e a imposição de uma “nova política macroeconômica que supere o longo ciclo dos juros elevadíssimos e câmbio apreciado com danosas consequências, entre as quais o processo de desindustrialização”.

Novamente, os juros já caíram e se encontram no patamar mais baixo da história do sistema de metas de inflação, e o câmbio está num nível razoável, tanto que o superávit comercial foi recorde em 2017 (ajudado também, é verdade, pela economia ainda em marcha lenta).

Mas não adianta. Mesmo com o juro e o câmbio em níveis aceitáveis até para a visão desenvolvimentista, as fundações dos partidos de esquerda fazem absoluta questão de repetir a nova matriz: mudar o regime macroeconômico para que as autoridades econômicas possam manipular os preços básicos da economia ao bel prazer dos seus propósitos intervencionistas. Ainda que o paciente esteja curado, o cirurgião não abre mão de fazer a cirurgia comprovadamente errada.

O documento mostra também que o pensamento de esquerda no Brasil segue firme com a ideia de ajudar empresários com o dinheiro do contribuinte. Não bastaram as centenas de bilhões de reais despejadas pelo BNDES no setor privado e que redundaram em escândalos como o do Friboi e foram parte dos equívocos de política econômica na raiz de uma das maiores recessões da história brasileira. É preciso abrir de novo a carteira para as indústrias nascentes em crise de meia idade ou da terceira idade.

Assim, é preciso manter a política de conteúdo local na cadeia petrolífera e ter uma política industrial voltada para este setor e também para biocombustíveis, fármacos, petroquímica, bens de capital, indústria de defesa, construção civil e agropecuária.

Não há uma palavra sobre reforma da Previdência no manifesto, nem mesmo sobre o tema agora popular de reduzir o privilégio previdenciário das corporações públicas. Muito pelo contrário, defende-se a “política institucionalizada de valorização do salário mínimo” – o contínuo aumento do piso previdenciário é uma das principais causas do déficit da Previdência – e “a garantia de aposentadoria digna”, que, nesse contexto, soa como uma palavra de ordem antirreforma.

A palavra “fiscal” aparece apenas uma vez no texto, no trecho sobre “reduzir estruturalmente a taxa real de juros, manter sob controle a dívida pública, assegurar o equilíbrio fiscal do Estado e defender a moeda”. É uma pequena concessão ao “neoliberalismo”, cercada de propostas generalizadas de aumentos de gastos, cujo efeito se aplicadas seria o de aumentar o juro real e a dívida pública e minar o equilíbrio fiscal e o valor da moeda.

Para não dizer que tudo no documento é ruim, fora as platitudes – “política públicas que contribuam para superar preconceitos”, “luta contra o racismo”, “proteção do meio ambiente”; quem seria contra estas bandeiras? –, há pontos como a taxação dos mais ricos e uma aparente proposta de reforma administrativa que merecem ser discutidos.

No geral, entretanto, o esboço de projeto nacional de desenvolvimento das esquerdas é bisonho e desanimador, e augura mal para o debate eleitoral este ano. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/2/18, sexta-feira.