O ocaso do neopopulismo na América Latina

Fernando Dantas

18 de junho de 2014 | 09h59

A decisão da Suprema Corte americana de manter sentenças de instâncias inferiores que determinam o pagamento a credores da Argentina que não entraram no acordo da renegociação tem um forte caráter simbólico, independentemente de ser ou não acertada do ponto de vista jurídico. O posicionamento da Suprema Corte culmina, de certa forma, uma maré muito negativa para o populismo latino-americano, e sinaliza que a radicalização política de esquerda na região já ultrapassou o seu auge e possivelmente caminha para a exaustão.

Ainda que os impactos mais imediatos da decisão não superem a forte queda da Bolsa e o aumento de quase quatro pontos porcentuais no já elevado risco país, os efeitos de médio e longo prazo apontam para uma Argentina ainda mais fragilizada em seu curso de heterodoxia econômica e isolamento financeiro. Os riscos de default, sem dúvida, aumentaram, embora ainda haja saídas que evitariam este novo evento traumático.

Do ponto de vista psicológico e político, o governo argentino agora encara o dilema entre abrir ou não negociações com os chamados “holdouts” – os detentores da dívida que não quiseram participar do acordo. O grande problema, porém, é que enfrentar os “abutres” do sistema financeiro internacional é um ponto de honra e uma arma de propaganda política do kirchnerismo.

O novo imbróglio ocorre sobre o pano de fundo do pior momento econômico em muito tempo de Argentina e Venezuela, os dois principais rebelados contra a “ordem neoliberal” iniciada nos anos 90 e que influenciou – e ainda influencia – a condução da política econômica em boa parte da América Latina.

É sintomático também que o segundo turno da eleição colombiana tenha sido disputado por dois candidatos à direita do centro, cuja dissenção básica é a forma de lidar com o movimento guerrilheiro das Farc, e não a política econômica. No Chile, a esquerda ganhou, mas é sabido que há muito tempo existe convergência entre os polos políticos do país em relação aos princípios básicos da política econômica.

Parece haver uma clara correlação entre a recente onda de populismo na América Latina e o boom de commodities desinflado pela desaceleração da China. Está cada vez mais difícil manter o crescimento acelerado da renda das parcelas mais pobres da população sem um arcabouço sólido e estável de política macroeconômica, que garanta uma trajetória favorável de crescimento e inflação no médio e longo prazo.

A virada dos ventos políticos na América Latina não é um fenômeno homogêneo e automático, o que fica claro nos problemas de Ollanta Humala, o presidente do Peru, um populista de origem que aderiu ao figurino ortodoxo. Apesar de o Peru experimentar anos de ótimo crescimento e baixa inflação, Humala perdeu popularidade.

A razão para isso é que o possível ocaso do neopopulismo bolivariano não significa a volta por si só do prestígio das políticas ortodoxas convencionais, basicamente voltadas a corrigir os desequilíbrios macroeconômicos e induzir melhoras de eficiência no setor privado. Independentemente de haver ou não orientação populista, os anos do boom de commodities lançaram a classe média popular ao papel de protagonista política em boa parte da América Latina, e agora este imenso contingente populacional exige um Estado provedor de mais e melhores serviços de educação, saúde, transporte, infraestrutura, etc.

As eleições no Brasil se dão, de certa forma, sob a égide desses dois grandes fenômenos: o fracasso do populismo radical e a cobrança da classe média ascendente de melhoras muito mais difíceis de entregar do que a simples expansão do consumo. O primeiro deles indica que seria um erro a presidente Dilma Rousseff redobrar a aposta na heterodoxia econômica. O segundo deveria ser um alerta para os candidatos de oposição, especialmente para Aécio Neves, de que apenas reavivar a agenda econômica da década de 90 não será suficiente.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 16/6/2014, segunda-feira.

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