O ônus eleitoral da heterodoxia

Fernando Dantas

25 de outubro de 2013 | 00h27

A experiência heterodoxa da política econômica brasileira a partir da crise econômica global, e que se aprofundou na primeira metade do mandato da presidente Dilma Rousseff, sofre um processo crescente de descrédito. Até o ex-ministro Delfim Neto, um valioso defensor dos governos petistas no eterno embate com a visão mais liberal dos tucanos, vem aumentando o tom de suas críticas à política econômica dos últimos anos. Recentemente, ele disse que a inflação “namorando permanentemente” o teto da meta de inflação é um problema.

A entrevista de Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC), à Broadcast, divulgada na quarta-feira, 16/10, deve ser entendida neste contexto. Fraga, muito próximo dos tucanos, vê o risco de tempos mais turbulentos para a economia brasileira como ligado diretamente à percepção dos agentes econômicos sobre a experiência heterodoxa, que ele chama de “flexibilização da política econômica”. Assim, para o ex-presidente do BC, quanto mais a expectativa for de que o governo virou a página e está voltando à ortodoxia, menos vulnerável o País estará ao que ele considera como a inevitável trepidação da normalização da política monetária americana.

O descrédito da experiência heterodoxa também já chegou à campanha eleitoral, e com força. Além das óbvias críticas tucanas, a dupla candidatura de Eduardo Campos e Marina Silva já deu sinais de que captou a fragilidade petista nesta área. Marina tem se alinhado ao coro de ataques à flexibilização da política econômica, o que já provocou uma reação de Dilma, e palavras de simpatia de Fraga, na entrevista à Broadcast.

A reação do governo ao insucesso heterodoxo, que chegou a ser chamado de “nova matriz econômica”, tem aspectos políticos e econômicos. No primeiro caso, a atitude de Dilma e sua equipe econômica é a de desconversar, o que é compreensível diante da disputa eleitoral – a hora não podia ser pior para exercícios de autocrítica. Assim, diante do ataque de Marina, Dilma reagiu com a reafirmação da solidez dos fundamentos brasileiros, sem qualquer tentativa de defesa do experimento heterodoxo.

Na seara econômica, o governo vem fazendo um lento e hesitante recuo. O Banco Central aparentemente recuperou um pedaço de sua autonomia, mas ainda não está 100% claro até onde está disposto a ir para resgatar plenamente a credibilidade anti-inflacionária. Na área de concessões, o governo vem buscando atender as demandas do setor privado. Já no campo fiscal, os sinais são confusos, e as notícias sobre a renegociação retroativa das dívidas de estados e municípios (que beneficia fundamentalmente a cidade de São Paulo e seu prefeito petista Fernando Haddad) não contribui para reduzir as preocupações de investidores e agências de rating.

Aparentemente, o cenário externo mais ameno, com o adiamento da normalização monetária nos Estados Unidos e a volta da China aos trilhos do “pouso suave”, está modulando o recuo do governo em relação à experiência heterodoxa. Como o cenário já não parece tão perigoso, evita-se uma virada muito brusca em direção à ortodoxia, que certamente seria usada pelos candidatos de oposição como evidência de que o governo tentou o caminho heterodoxo, fracassou e foi obrigado a dar uma guinada de 180 graus.

Dilma, de certa forma, tenta camuflar a titubeante virada da política econômica, o que é um sinal de que o governo de fato vê a nova matriz econômica como um ônus eleitoral. Assim, considerando-se que a heterodoxia está em baixa tanto para o governo quanto para a oposição, é possível supor que a política econômica brasileira ruma para um período mais convencional, seja qual for o vencedor em 2014.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (e-mail: fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast

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