O otimismo do criador dos BRICS

O economista inglês Jim O'Neill, que cunhou o nome do grupo de países (Brasil, Rússia, China e Índia, mais tarde com o acréscimo da África do Sul) que viriam a se associar formalmente, está otimista com uma recuperação em "V" da economia global. Será mesmo?

Fernando Dantas

14 de setembro de 2020 | 11h40

Quem anda animado com o formato da recuperação global pós-auge da Covid é Jim O’Neill, o economista britânico célebre por ter cunhado a expressão BRICs, para ser referir então a Brasil, Rússia, Índia e China, os grandes emergentes fadados a assumir um papel cada vez mais importante na economia global. Depois o “s” ficou maiúsculo, os BRICS incorporaram a “South Africa” e viraram, inclusive, um grupo oficial de nações.

O’Neill, por muito tempo economista-chefe do Goldman Sachs, e que já escreveu artigos exclusivos para o Estadão, também é famoso por seu amor ao futebol (já foi cartola do Manchester United e se suspeitou numa ocasião que tramava comprar o clube com um grupo de investidores), esteve no governo britânico e virou barão (Baron O´Neill of Gatley) em 2015.

Mas voltando à vaca fria, o economista, muito respeitado como analista, para além da sua movimentada vida profissional, publicou artigo em 10/9, pelo site de distribuição de conteúdo Project Syndicate, em que diz que grande parte da economia global está se recuperando em “V”.

Adicionalmente, O’Neill asseverou que vários fatores estruturais podem acelerar ainda mais a retomada, mas alguns deles dependem da cooperação internacional.

No artigo, ele notou que indicadores antecedentes apontam taxas de crescimento de 10% a 15% no terceiro trimestre em vários países, depois do tombo gigante do segundo trimestre (auge da crise em boa parte do mundo não asiático).

Em seguida, o economista chama atenção para alguns riscos, antes de delinear seu argumento sobre os fatores estruturais favoráveis.

O risco principal mencionado por O’Neill é bem manjado: uma segunda onda da pandemia, que já deu sinais preocupantes em alguns países europeus, com destaque para a Espanha.

E aí entra a questão da vacina. Ele observa que seria preciso desapontamento com todos os projetos promissores de vacina para descarrilar uma provável recuperação, em algum momento nos próximos meses, dos setores mais abalados pela pandemia, como turismo internacional, entretenimento e hospedagem.

O’Neill nota que a queda do ritmo da pandemia nos Estados Unidos e a supressão bem sucedida na China – os dois grandes motores econômicos do mundo – auguram melhora de atividade global e do comércio internacional à frente, a despeito da guerra comercial e tecnológica entre os dois rivais.

Outro fator positivo é que os estímulos fiscais impulsionaram a demanda doméstica mundo afora, e então a retomada pode acelerar mais o comércio global do que o antecipado, em vez de ser na base da disputa de uns pelos mercados dos outros.

Obviamente o dinheiro distribuído por governos terá que ser pago um dia, mas O’Neill parece razoavelmente confiante de que a reversão dos estímulos fiscais e monetários pós-pandemia será bem conduzida. Ele alerta, entretanto, que a tranquilidade acaba se surgirem sinais de inflação.

O economista, finalmente, exorta que as nações se concertem para criar um plano coordenado de vacinação global, cujo custo de US$ 35 bilhões, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é uma gota d’água comparado ao oceano dos estímulos fiscais concedidos.

Mas será que a visão do criador dos BRICs está rósea demais?

Segundo um respeitado gestor de recursos brasileiro, há um ponto indiscutível: o mundo está se recuperando dos efeitos econômicos da Covid-19 de forma bem mais rápida do que se imaginava há três meses.

Mas há, ele acrescenta, uma série de fatores de risco cujo efeito só ficará claro um pouco adiante.

A recuperação global veio na esteira dos gigantescos estímulos monetários e, especialmente, fiscais realizados por diversos países, com destaque para as nações mais ricas.

Uma questão óbvia é o que vai acontecer quando a economia mundial for “desmamada” desses anabolizantes. O calendário de “desmame” importa e alguns países, como a Alemanha, já anunciaram manutenção de medidas até o final de 2021.

Porém, pela óbvia questão da sustentabilidade fiscal, seja um pouco mais cedo, seja um pouco mais tarde, a economia global terá de andar com as próprias pernas.

É o chamado “fiscal cliff”, despenhadeiro fiscal, que vem sendo discutido internacionalmente: o momento em que o estímulo cessa.

Outro problema é a peculiaridade desta crise de ter afetado mais setores muito empregadores, como turismo, viagens e hospedagem. E também afetou mais micro, pequenas e médias empresas, que também empregam muito. Nesse segundo caso, porque esses negócios de pequeno forte tiveram menos fôlego para sobreviver à quarentena.

O resultado é que a pandemia arrasou mercados de trabalho mundo  afora. O impacto da destruição de empregos no consumo foi muito contido pelas injeções maciças de dinheiro, pelos governos, para famílias e pequenos negócios.

Assim, há uma corda bamba a atravessar, ligando o consumo movido a transferência ao consumo movido a salário. Se os benefícios forem retirados antes que o mercado de trabalho ganhe certo nível de tração, a economia global pode levar outro tombo muito feio. O problema é que manter o estímulo por mais muito tempo pode criar outro risco para muitos países, de natureza fiscal, que também pode prejudicar a retomada.

Trata-se, portanto, de um operação de sintonia fina na política econômica.

E, finalmente, o gestor também menciona o risco de uma segunda onda da pandemia, ainda mais com a chegada do inverno no hemisfério Norte, que tende a aglomerar pessoas em ambientes fechados.

“Temos que ter muita cautela em extrapolar o ritmo da retomada até agora para a frente”, ele conclui.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/9/2020, sexta-feira.

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