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O otimismo duvidoso do Banco Central

Fernando Dantas

11 de abril de 2014 | 18h29

O Banco Central (BC) considera que o atual choque de alimentos tem efeitos temporários, que o ciclo de alta da Selic iniciado em abril do ano passado ainda terá impacto significativo sobre a demanda (já debilitada pela falta de confiança dos agentes econômicos) e que a pressão cambial nos preços já não é um problema tão grave (foi retirada a menção ao combate aos efeitos secundários no parágrafo que trata do câmbio na ata da última reunião do Copom, divulgada na quinta-feira, 11/4). Assim, tudo está preparado para o encerramento do ciclo na reunião do final de maio, na qual há uma possibilidade minoritária – a depender dos dados até lá – de uma alta derradeira de 0,25 ponto porcentual na taxa básica, hoje em 11%.

Essa parece ser, em resumo, a mensagem que a maior parte do mercado tirou da recente comunicação do BC, seja na ata, seja em declarações do seu presidente, Alexandre Tombini.

Reafirma-se, dessa forma, mais uma vez, que o BC quer parar de apertar a política monetária. É muito provável que este desejo derive da percepção de que os riscos de um ritmo de atividade econômica ainda pior que o antecipado não são pequenos.

O problema, porém, é que boa parte dos analistas considera as hipóteses que fundamentam o eventual fim do ciclo de elevação da Selic excessivamente otimistas.

O choque de alimentos não se limita aos produtos in natura que tipicamente “devolvem” as altas muito rápido, em ciclos de oscilação curtos, e que não costumam ter impactos muito sérios sobre a inflação fechada do ano calendário. Há também segmentos, como carne e leite, cujo ciclo de preços é mais longo, e que podem ter impacto no IPCA de 2014. A carne, por exemplo, é afetada por questões climáticas mais complexas, que não se limitam ao Brasil.

Já o efeito defasado da política monetária é um conceito consensual entre os economistas, mas seu uso como argumento na atualidade pelo BC tem aspectos problemáticos. Sem entrar na questão de que o ciclo já tem um ano – afinal, pode-se alegar que a Selic só atingiu níveis de maior impacto na demanda a partir de um momento bem posterior ao início da alta –, existe o problema de saber se a taxa básica alcançou ou superou a chamada taxa de juros neutra.

A taxa neutra, de forma muito simplificada, é o juro que não estimula nem desestimula a demanda. Assim, o efeito defasado só se fará sentir para valer se a Selic superou a taxa neutra. Em caso contrário, o máximo que se pode dizer é que a elevação diminuiu o grau de expansionismo da política monetária.

Carlos Kawall, economista-chefe do banco J. Safra, lembra-se do estudo do FMI que situou a taxa real neutra do Brasil entre 4,5% e 5,5%. Ele acha, porém, que, dada a política fiscal frouxa dos últimos anos, a taxa real neutra pode ter subido. Trabalhando com o limite superior daquele intervalo, de 5,5%, ele nota que o juro real hoje é de aproximadamente 4,5% – abaixo do juro neutro, portanto. Desta forma, raciocina, talvez não se deva esperar tanto do efeito defasado do ciclo de alta da Selic, em termos de efetivamente reduzir a pressão de demanda.

Em relação ao câmbio, a recente apreciação é de fato um fator favorável ao Banco Central. Em ano eleitoral, porém, e com uma situação internacional ainda longe de perfeitamente estabilizada, contar com essa âncora no médio e longo e prazo pode ser temerário.

Todos esses fatores fazem com que parte expressiva dos analistas avalie que o cenário inflacionário continuará a piorar. José Márcio Camargo, economista da gestora Opus, no Rio, e professor da PUC-Rio, critica a ênfase recente de Tombini nos impactos do choque de alimentos.

“Todos os aspectos da inflação estão ruins, temos excesso de demanda e taxa de desemprego baixa, e serviços e salários subindo 9% ao ano – os alimentos são apenas um fator a mais”, ele diz.

Kawall, por outro lado, nota que a inflação de abril deve vir bastante alta (a projeção do J. Safra é de 0,84%), e prevê que o IPCA em 12 meses chegará 6,77% em junho, a 6,97% em julho, e 6,5% no ano fechado. Ele nota que, na reunião de maio, o BC já deve ter claro que a projeção de IPCA em 12 meses de 6,2% em junho, que consta do cenário de referência do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março, vai se revelar bem abaixo da realidade. Diante deste cenário deteriorado, Kawall crê que o BC fará mais duas elevações da Selic, em maio e julho – ainda que toda a comunicação indique que ele quer parar.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada ontem, quinta-feira, 11/4/14, pela AE-News/Broadcast

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