O otimismo que aumenta o pessimismo

Fernando Dantas

06 de agosto de 2014 | 17h23

O governo brasileiro está numa situação curiosa em que as declarações de cunho eleitoral da equipe econômica podem contribuir para piorar as expectativas, o que, em tese, caso produza efeitos a muito curto prazo, pode tornar a disputa eleitoral ainda mais difícil para a presidente Dilma Rousseff.

Em recente entrevista, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, protagonizou exatamente esse papel: o de tentar transmitir uma sensação de segurança para a sociedade e para os agentes econômicos, mas com o risco de trazer ainda mais preocupação e desânimo em relação ao futuro.

Esse aparente paradoxo tem explicação. O Brasil hoje é um país com um grau de vulnerabilidade relevante. Há déficit em conta corrente que, pelos padrões históricos, está próximo da área de risco. A inflação está alta, a economia arrasta-se e a política fiscal é das menos rigorosas dos últimos anos.

Com o ambiente ainda de alta liquidez internacional, e reservas internacionais elevadas (uma munição que, entretanto, vem sendo liquidamente reduzida com as operações de swap no mercado cambial), o Brasil tem navegado com certa tranquilidade, apesar das vulnerabilidades. Todo o risco está numa piora financeira internacional, que de fato testaria os fundamentos do País.

Essa é a grande preocupação dos mercados, e é em função dela que a corrente majoritária de analistas acha necessário um ajuste profundo da economia brasileira. Como não dá nem para pensar neste tipo de correção num ano eleitoral, o timing ótimo seria o ano de 2015, com um novo governo e capital político renovado.

Do ponto de vista da estratégia eleitoral, entretanto, Mantega nega a necessidade do ajuste, porque ela indiretamente aponta erros de política econômica que teriam provocado o desequilíbrio em primeiro lugar.

Na entrevista, na semana passada, a jornalistas do grupo Estado (João Villaverde, Renata Verissimo , Mauro Zanatta e Marcelo de Moraes), Mantega negou haver um “tarifaço” encomendado para 2015, disse que o Banco Central poderá flexibilizar a política monetária no próximo ano e indicou que tudo está de acordo com os planos na política fiscal.

É um discurso claro de negação do ajuste econômico em 2015. O ministro tem alguma razão ao indicar que o ajuste já começou em parte – por exemplo, no ajuste das tarifas de energia. Mas o posicionamento que poderia resgatar a confiança dos agentes econômicos seria o de que, mesmo que iniciada, a correção continuará em 2015 até o ponto em que for necessário para reduzir substancialmente a vulnerabilidade do País.

Ao descartar essa hipótese, Mantega provavelmente contribui para que empresários e investidores tornem-se ainda mais céticos em relação à capacidade de a economia brasileira reagir num segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

Não que se considere que o atual ministro continuará no atual posto em 2015. Na verdade, quase todos pensam que ele sairá. O problema é que a maioria dos analistas acha que Dilma é, de fato, a grande formuladora de política econômica do seu governo. Neste sentido, Mantega é visto como um transmissor das convicções e diretrizes presidenciais. E a insistência de que não haverá ajuste no próximo ano, embora possa fazer sentido eleitoralmente, contribui para aumentar as incertezas que estão minando a confiança dos agentes e agravando a situação da economia.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast na segunda-feira, 4/8/2014.

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