O paradoxo do consumo e da produtividade

Para Ricardo Paes de Barros, o PB, há alguma coisa errada na narrativa que combina, de forma paradoxal, os grandes avanços sociais e a baixíssima evolução da produtividade do trabalho no Brasil.

Fernando Dantas

15 Abril 2015 | 12h08

O economista Ricardo Paes de Barros, do Insper, fez em 8/4/15 (quarta-feira) no Rio uma interessante apresentação com o título sugestivo de “Sobre a incompatibilidade entre a evolução da capacidade de consumo e a produtividade dos trabalhadores brasileiros”.

PB, como é conhecido o pesquisador, mostrou que entre 2008 e 2012 a remuneração média do trabalho no Brasil cresceu 18 pontos porcentuais acima do PIB por trabalhador. Outro dado apresentado pelo economista foi o de que, entre 2004 e 2011, a remuneração média do trabalho cresceu 15 pontos porcentuais a mais que produtividade média do trabalho pela ótica da despesa, e 21 pontos porcentuais a mais que a produtividade pela ótica o produto.

Ele apontou alguns fenômenos que poderiam explicar essas discrepâncias: entre eles, um aumento da participação da renda do trabalho na renda nacional, comparada com a do capital; e uma melhora dos termos de troca. De fato, a renda do trabalho saiu de 54% para 56% entre 2007 e 2011, e os termos de troca tiveram uma melhora expressiva no período.

Mas, segundo os números apresentados por PB, é a diferença entre o IPCA (usado para os cálculos dos valores reais na Pnad) e o deflator implícito do consumo das famílias do PIB que explica a maior parte, ou 58%, da diferença entre a capacidade de consumo e a capacidade de produção no período analisado (2001 a 2011). O deflator do consumo das famílias cresceu a um ritmo anual 0,7 ponto porcentual superior ao do IPCA. A capacidade de consumo é medida pela renda domiciliar per capita deflacionada pelo IPCA e a capacidade de produção pelo PIB per capita deflacionado pelo deflator implícito do PIB.

O mais instigante da apresentação, realizada durante seminário de inauguração do Centro de Crescimento e Desenvolvimento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio, é que PB indicou que um de dois fenômenos da história econômica brasileira recente, amplamente conhecidos e debatidos, está errado ou exagerado: ou o crescimento da produtividade do trabalho não foi tão ruim (embora ainda assim esteja longe de ser bom) ou o avanço social e a redução da pobreza não foram tão substanciais quanto se pensava. O pequisador mostrou também que o papel da renda do trabalho na melhora social foi bem maior do que o das transferências.

Na sua apresentação, o economista mostrou que a taxa média anual de crescimento da produtividade do trabalho brasileira de 2001 a 2011, de pouco mais de 1%, é muito inferior à média da América Latina (excluindo o Brasil) e da África no período – ambas em torno de 2,5%. Porém, se aquela discrepância indica um superestimativa do deflator do PIB, talvez o desempenho da produtividade tenha sido um pouco maior e não fique tão distante das marcas latino-americana e africana.

Por outro lado, se o IPCA está subestimando a inflação real das famílias, os avanços sociais não foram tão radiantes. PB deu alguns exemplos do sucesso desses indicadores pela medição convencional: entre os Censos demográficos de 2000 e 2010, a proporção de municípios brasileiros com IDH abaixo de 0,5, um nível muito baixo, caiu cem vezes, de cerca de 50% para um nível em torno de 0,5%. Já a renda média domiciliar per capita entre 2001 e 2013 cresceu a um ritmo de aproximadamente 3,3%, sendo que os 10% mais pobres cresceram a 6,5% e os 10% mais ricos ligeiramente mais do que 2%.

Segundo PB, uma agenda importante é tentar entender “como fizemos mágica social sem crescimento econômico, com os vagões andando mas a locomotiva parada”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 9/4/15, quinta-feira.