O perigo de romper teto da meta

Ex-diretores do BC preocupam-se em que até teto do intervalo de tolerância, de 6,5%, perca seu poder de conter expectativas de inflação.

Fernando Dantas

19 de março de 2015 | 17h29

O ano de 2015 apresenta um risco adicional à ancoragem das expectativas inflacionárias pelo fato de que o IPCA acumulado em 12 meses deve permanecer boa parte do tempo e fechar dezembro muito acima do teto da banda de tolerância do regime de metas, de 6,5%. Esta preocupação foi manifestada por dois ex-diretores do Banco Central  – Afonso Bevilaqua, professor da PUC-Rio, e Rodrigo Azevedo, da gestora Ibiúna, em São Paulo – em suas exposições durante seminário sobre política monetária realizado em 12/3/15, quinta-feira, pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), think thank da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio).

“Com o acumulado em 12 meses caminhando em 8%, 8,5%, não está muito claro qual é o novo atrator (nível que atrai) das expectativas”, disse Bevilaqua.

Azevedo reforçou a ideia, notando que o funcionamento do sistema de metas nos últimos anos criou “uma expectativa implícita de que 6,5% é a ancoragem nominal”. Em outras palavras, o mercado acredita que a política monetária basicamente se esforça para que a inflação não ultrapasse o teto de 6,5% (especialmente no ano calendário, que define oficialmente o cumprimento da meta), muito mais do que perseguir a meta central.

“É difícil convencer meu trader de que vale a pena comprar inflação de 6,2%, 6,3%”, disse Azevedo, referindo-se a posições que produzam ganhos se a inflação ultrapassar o teto de 6,5%.

Assim, uma virtude do sistema de metas demonstrada no caso brasileiro foi a de, mesmo quando a meta central deixou de ser devidamente perseguida, ainda assim algum tipo de ancoragem ter sido criada em relação ao teto do intervalo de tolerância.

A preocupação, naturalmente, é com a forte e prolongada ruptura dessa “âncora” ao longo de 2015. Isto, por sua vez, está ligado não só à correção dos preços administrados, mas também à disparada do dólar. Durante o seminário, que também teve como debatedores os ex-diretores do BC Mário Mesquita (Brasil Plural), Eduardo Loyo (BTG-Pactual) e Sergio Werlang (Divitia Investimentos), o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore e o anfitrião José Júlio Senna, do Ibre/FGV, a visão geral foi de que a tendência – em termos de fundamento – do câmbio, levando-se em conta o déficit externo de mais de 4% do PIB e a economia parada, é de depreciação.

Loyo notou que o fraco impacto até agora da depreciação na inflação dos produtos comercializáveis internacionalmente (tradables) também é um sinal de pass-through inflacionário comedido, o que pode ser positivo no curto prazo.

Por outro lado, o câmbio real deve tender a se depreciar até o ponto de levar o lado externo da economia para bases mais sustentáveis. Como a maioria das moedas dos parceiros comerciais do Brasil também está se depreciando ante o dólar, a perda de valor do real perante a moeda americana terá de ser ainda mais intensa. Loyo notou que o dólar é um parâmetro importante para a formação de expectativas inflacionárias no Brasil, o que complica a situação do BC.

O economista acha ainda que o real pode sofrer depreciação adicional quando de fato se iniciar a normalização monetária nos Estados Unidos, com a alta pelo Federal Reserve (Fed, banco central) da taxa básica e o impacto nas taxas longas.

O seminário fez parte do evento de lançamento do livro “Essays and Conversations on Monetary Policy”, de Senna. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 13/3/2015, sexta-feira

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