O pessimismo de Samuel Pessôa

Economista da gestora Reliance e do Ibre-FGV, ex-assessor de Aécio Neves durante a campanha, acha que, passado o choque da perda do grau de investimento pela S&P, sociedade tende a "a se acostumar" com dólar e inflação mais altos. Sair da crise econômica, para ele, exige uma capacidade política que não existe no atual governo.

Fernando Dantas

10 Setembro 2015 | 23h28

O economista Samuel Pessôa revela que vive uma situação um pouco paradoxal. Por um lado, ele ficou positivamente surpreso com o fato de que o diagnóstico sobre os problemas econômicos que elaborou junto com Mansueto Almeida e Marcos Lisboa tenha sido rapidamente absorvido pela sociedade. Por outro, ele está muito pessimista quanto ao futuro do País, como há muito tempo não ficava na sua vida profissional. Ele não crê que a perda do grau de investimento junto à Standard&Poor’s possa provocar uma reação que leve o País a enfrentar seus maiores problemas.

Pessôa é sócio e economista-chefe da gestora Reliance, em São Paulo, e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV). Durante a campanha presidencial, assessorou o candidato tucano Aécio Neves, em dupla com Mansueto, e tem sido uma das vozes mais ativas e instigantes no recente debate econômico.

O trabalho recente de Pessôa, Mansueto e Lisboa basicamente diagnostica que o Brasil instituiu uma dinâmica de crescimento do gasto público acima do PIB desde a redemocratização, que foi coberta durante algum tempo pela expansão proposital da carga tributária e num período subsequente por um crescimento anormalmente alto da arrecadação, ligado ao boom de commodities e a outros fatores. Agora, porém, todos esses fatores se esgotaram, e o País enfrenta uma crise fiscal estrutural que terá de ser resolvida com a mudança do que Pessôa chama de o “contrato social da redemocratização”. Por cima disso, para agravar as dificuldades, vieram os problemas trazidos pela equivocada “nova matriz econômica” que vigorou de 2009 a 2014.

“Eu achava que o nosso texto era muito avançado para o estágio do debate da sociedade, e fiquei surpreso de ver como foi rapidamente absorvido, já parece não ser nenhuma novidade”, diz Pessôa. Ele nota que, com exceção de alguns heterodoxos que culpam o atual ajuste fiscal como responsável pela crise, e que “estão claramente perdendo o debate”, o seu diagnóstico junto com Mansueto e Lisboa foi amplamente aceito entre os economistas e por representantes da sociedade.

Pessôa observa ainda que temas que há pouco tempo eram considerados tabus políticos, como idade mínima para a Previdência, começaram a ser discutidos abertamente. “Parece que surgiu um clima para falar coisas que antes ninguém tinha coragem de falar”.

O problema, porém, para o economista, “é que a questão é eminentemente política, e o governo perdeu totalmente a capacidade política de reação”.

Assim, ele não crê que a perda do grau do investimento será a sacudida que vai tirar o País do torpor e levá-lo a enfrentar a agenda estrutural.

“Tem sempre o choque inicial da notícia, a gente fica atordoado. Aí o governo reconhece o problema, propões soluções, circulam balões de ensaios, os políticos dizem que farão alguma coisa. Mas com o tempo a gente se acostuma com o dólar mais desvalorizado, se acostuma com as expectativas de inflação mais altas, o BC eventualmente sobe mais um pouquinho a Selic – mas, fundamentalmente, nada muda”, analisa Pessôa. Ele nota que também há alguns amortecedores, como as reservas internacionais, que ainda fazem o governo ser credor líquido em dólares e melhorar a situação patrimonial com a desvalorização.

Pessôa considera que enfrentar a agenda estrutural agora é um desafio político da ordem do que foi o Plano Real e a “arrumação de casa” dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, se não for maior. Naquela época, houve uma agenda difícil que incluiu privatização de bancos estaduais, renegociação da dívida dos governos estaduais e Lei de Responsabilidade Fiscal.

Agora, para ele, o desafio é mais difuso, e envolve a revisão dos programas sociais e previdenciários como um todo, inclusive a grande parte que ele considera “meritória”. Envolve também temas dificílimos como mudar a regra de reajuste do salário mínimo. Pessôa acha que o mínimo deveria ser ajustado apenas pela projeção de inflação futura do Focus (sistema de coleta de expectativas do Banco Central) por alguns anos.

Ele também defende medidas polêmicas como a de se usar 30% da receita do sistema S para reforçar o primário, e rever o direito irrestrito de greve dos servidores públicos: “Estamos numa crise fiscal terrível, com risco de o câmbio disparar e a inflação explodir, e com o desemprego aumentando no setor privado – enquanto isso, professores universitários estão há 100 dias em greve, sem sofrer nenhuma penalidade; é uma atitude irracional, parece que estes professores moram em outro País”, ele critica.

“Infelizmente, não vejo nenhum sinal ainda de como vamos enfrentar esse enorme desafio político”, conclui Pessôa. (fernando.dantas@estadao.com)

 

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

 

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 10/9/15, quinta-feira.