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O PIB do alívio

Economia no segundo trimestre afastou fantasma da recessão técnica e teve boas notícias no investimento e na construção civil, dois setores (primeiro pela demanda, segundo pela oferta) que apanharam muito na crise desde 2015.

Fernando Dantas

30 de agosto de 2019 | 12h50

A divulgação do PIB do segundo trimestre foi uma boa notícia para a equipe econômica e o governo.

Com 0,4% de crescimento ante o trimestre anterior, na série dessazonalizada, o resultado sepultou o risco de uma “recessão técnica”, ou seja, dois recuos trimestrais sucessivos nesta medida. Muito questionável em termos econômicos, ainda assim a recessão técnica, caso se configurasse, ia fazer a festa das manchetes e contribuir negativamente para a expectativa dos agentes.

No entanto, além de ter escapado da recessão técnica, a economia brasileira deu outros bons sinais no segundo trimestre.

Uma ressalva tem que ser feita: não seria nada muito entusiasmante em tempos normais. Porém, considerando que, desde o fim da recessão de 2014-2016, a economia se arrasta em ritmo muito lento, próximo da estagnação e dando margem até mesmo ao temor de um novo mergulho recessivo, os números do segundo trimestre foram reconfortantes.

Especialmente porque dois componentes importantes e interligados – o primeiro pelo lado da demanda, e o segundo da oferta –, e que vem mal há anos, deram sinal de vida: a formação bruta de capital fixo (FBCF ou, de forma simplificada, os investimentos) e a construção civil.

São justamente dois dos setores que mais apanharam na combinação de megacrises na economia e na política que sacode o Brasil desde 2015.

O investimento depende de confiança e alguma visibilidade que permita traçar cenários de probabilidades para o futuro, ingredientes que a sociedade brasileira não vem conseguindo entregar a quem está disposto a arriscar seu dinheiro em atividades produtivas visando o lucro.

Já a construção civil sofre pela ressaca financeira depois que o boom imobiliário foi abalroado pela crise atual, afetando empresas do setor e compradores de imóveis, e pela devastação produzida pela Lava-Jato no segmento da construção pesada.

No PIB do segundo trimestre, a FBCF cresceu 5,2% em relação ao mesmo período de 2018, e 3,2% ante o primeiro trimestre, na série dessazonalizada.

O investimento é um componente do PIB volátil, que costuma crescer e cair a taxas fortes em intervalos pequenos. Logo, aqueles números não são nada impressionantes, especialmente levando em conta o tombo da FBCF desde 2014. Mas, ainda assim, os números vieram na faixa das melhores expectativas do mercado, e agradaram.

Flávio Serrano, economista-chefe do Haitong Bank, nota que a crise argentina reduziu a exportação de bens de capital para o país vizinho. Como esses equipamentos ficaram no Brasil e entraram para estoque, isto acaba contribuindo positivamente para a FBCF, já que a formação de estoque está incluída no conceito pelo lado da demanda da variável.

Já a construção civil cresceu 2% em relação ao segundo trimestre de 2018, a primeira taxa positiva nesta leitura desde o primeiro trimestre de 2014, o que é impressionante.

Em relação ao primeiro trimestre de 2019, na série dessazonalizada, a construção civil cresceu 1,9%, o melhor resultado também desde o primeiro trimestre de 2014 – e um dos três números trimestrais positivos neste período; nos outros 18 trimestres, houve recuo.

Como nota Silvio Campos Neto, economista e sócio da consultoria Tendências, a geração de empregos na construção civil já vinha sugerindo que o setor finalmente conseguira levantar a cabeça para fora d’água, mas é a primeira vez que isto aparece claramente nos números do PIB, após um longo período.

No mais, o PIB do primeiro trimestre mostrou um consumo das famílias que prossegue com fôlego modesto, mas persistente, e a conhecida e necessária retração do consumo do governo por questões fiscais.

A agropecuária, que tem um comportamento idiossincrático em relação ao resto do PIB, veio morna; e a indústria extrativa mineral, ainda digerindo o efeito do desastre de Brumadinho na mineração, recuou com força. A indústria de transformação não chegou a brilhar, mas tampouco comprometeu.

De forma geral, o PIB do segundo trimestre deve reforçar as previsões para o ano fechado em torno de 1%, e enfraquecer a corrente que estava levando-as para região em torno de 0,5%.

Serrano, do Haitong, projeta que o PIB do terceiro trimestre deve “devolver” parcialmente os ganhos do PIB do segundo – isto é, ser um pouco mais fraco –, mas com novos avanços no quarto e no primeiro trimestre de 2020.

De qualquer forma, a notícia boa sobre o PIB do segundo trimestre já é uma fotografia do passado. No momento, o Brasil se depara com mais uma onda de aversão a risco no cenário externo (e nos atingindo com mais força, pela proximidade com a Argentina).

Essa piora já começa a ter efeitos na crucial curva de juros doméstica, o que lança algumas dúvidas sobre o tamanho e o timing da projetada continuação do ciclo de redução da Selic pelo BC.

Até agora, para o Brasil, o “choque” externo não tem voltagem dramática, mas, por outro lado, a retomada é ainda é muito modesta e frágil. A melhor alternativa para o governo é reforçar a ênfase na agenda econômica positiva que vem sendo tocada, e parar com os tumultos políticos e de relações internacionais criados pelo presidente, que jogam muita poeira no ar e reduzem a visibilidade necessária para as decisões de investimento.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/8/19, quinta-feira.

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