O PIB e a confiança

Segundo analistas, ou a economia se recupera em bom ritmo ou fica quase parada em 2017. Tudo depende de a melhora recente nas expectativas se traduzir em aumento da produção. Se o otimismo for falso alarme, porém, os pequenos sinais positivos na divulgação do PIB do segundo trimestre de 2016 não vão conduzir a uma efetiva aceleração.

Fernando Dantas

02 Setembro 2016 | 12h28

O PIB do segundo trimestre não trouxe grandes surpresas para o mercado, sendo em termos gerais ligeiramente pior que a mediana das expectativas. Por outro lado, os resultados reforçaram uma visão que vem ganhando tração entre os analistas, sobre o caráter de certa forma binário das expectativas de retomada da economia em 2017 – as coisas podem ir muito bem ou muito mal, a depender do que resultar da notável melhora recente dos indicadores de expectativas dos índices de confiança.

Essa melhora das expectativas não se traduziu até agora em avanços de intensidade correspondente nos indicadores qualitativos sobre a situação presente, que constam também dos índices de confiança; e tampouco dos números reais da economia, em que pesem alguns sinais recentes de que o pior já passou (incluindo o PIB no segundo trimestre), como no caso da indústria.

Na visão de diversos analistas, a consolidação da melhora da confiança e sua transmissão para a economia real dependem fundamentalmente do sucesso do governo em encaminhar politicamente as medidas de ajuste fiscal, com destaque para a PEC de limite de gastos e a reforma da Previdência.
Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, diz que sua projeção de crescimento do PIB em 2017 é de 1,5%, mas este número, na verdade, reflete uma média de cenários binários: ele crê que é mais provável que ou cresça perto de zero ou na faixa de 2,5% a 3%.

“É uma média com a cabeça no forno e o pé na geladeira”, resume Rocha.
Visão muito parecida é a de Alexandre Ázara, economista chefe da gestora Mauá Capital. Em relação ao resultado do PIB no segundo trimestre, o economista diz que “não dá para comemorar fundo de poço e daqui para frente vai depender da confiança, podemos ir em 2017 para zero ou 2,5%”.

Como explica Rocha, a fotografia mostrada pelo PIB do segundo trimestre é a de uma economia ainda em queda, mas com um começo de recuperação na margem na indústria e nos investimentos, que foram justamente os primeiros a cair, e agora partem também na frente neste ensaio de reação. O problema é que os componentes maiores e mais inerciais do PIB, os serviços e o consumo das famílias, que demoraram mais a entrar em retração, agora também prosseguem piorando, puxados pela deterioração do mercado de trabalho que tipicamente se estende além do pior ponto da recessão.

“O grande risco para a recuperação é uma decepção com o ajuste fiscal que aborte a retomada antes que ela chegue aos serviços”, diz o economista. Se, porém, o governo Temer (confirmado hoje em caráter definitivo, com o impeachment de Dilma Rousseff) tiver sucesso no encaminhamento do acerto das contas públicas, a tendência é que a melhora da indústria se transmita aos serviços, assim como a dos investimentos ao consumo, atingindo finalmente o mercado de trabalho e estancando e revertendo a sua piora.
Neste caso, raciocina Rocha, o ano de 2017 poderia antecipar o crescimento mais vistoso que muitos analistas por enquanto acham que só viria em 2018.

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio, também vê o desempenho da economia em 2017 como fundamentalmente ligado aos índices de confiança e à relação destes com a expectativa de ajuste fiscal. Ela ainda prevê queda do PIB na margem no terceiro trimestre, mas menor do que o recuo de 0,6% do segundo trimestre. O que mais importa no momento, entretanto, na visão da gestora, é como Temer e sua equipe econômica vão conseguir aprovar o limite dos gastos e a reforma da Previdência, ao longo deste ano e do próximo, com o mínimo possível de desfigurações. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1º/9/16, quinta-feira.