O PIB ficou maior

Bráulio Borges, da LCA, anteviu que a revisão metodológica do PIB aumentaria seu nível e traria um crescimento maior em 2011. Ele acha que os novos números melhoram indicadores de solvência pública.

Fernando Dantas

12 de março de 2015 | 00h36

Há dois anos, Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, vem pesquisando e chamando a atenção para questões metodológicas que poderiam estar levando a retratos do PIB brasileiro piores do que a realidade. Ele tem sugerido que o “mistério do PIB” – por que nos últimos anos as projeções de crescimento foram sistematicamente superiores à realidade – poderia ser explicado em parte pelo fato de que a medição da economia estaria subestimando tanto o seu tamanho quanto o ritmo de crescimento.

A revisão metodológica divulgada hoje (11/3/15, quarta-feira) pelo IBGE mostra que Borges tinha razão, pelo menos no que se refere ao período até 2011. O tamanho da economia em 2011 foi revisto para cima em 5,9%, e Bráulio previu algo entre 5% e 10% de mudança para cima do nível em 2014. Ele acha que, quando houver a divulgação nas novas bases metodológicas dos anos subsequentes a 2011, o salto até 2014 deve ficar entre 7% e 8%. Já o crescimento de 2011 foi revisto de 2,7% para 3,9% – o economista projetara que iria para 3,5%.

Tendo se dedicado bastante ao assunto e chegado muito perto dos resultados até 2011, vale a pena prestar atenção nas suas previsões para o período de 2012 a 2014. Ele alerta que é mais difícil acertar, e que há fatores que podem pesar tanto para cima como para baixo, como a construção civil – que aumentou sua participação no PIB – ter tido desempenho muito ruim em 2014. Ainda assim, Borges prevê que o crescimento em 2012 suba de 1% para o intervalo entre 1,5% e 2%, e que as revisões de 2013 e 2014 sejam menores.

Em termos de indicadores de solvência, Borges projeta que a dívida bruta deve recuar de quase 64% do PIB em dezembro de 2014 para menos de 60% na mesma data, e a dívida líquida, de 37% para 34%. Já a meta de superávit primário consolidado de 2015, de 1,2% do PIB, deve subir de R$ 66,3 bilhões para R$ 70 bilhões. Ele considera que as mudanças na dívida serão uma “melhora importante nos indicadores de solvência fiscal”.

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, considera que “as mudanças não alteram a ideia de qual é o superávit primário necessário para estabilizar a dívida/PIB, e, por isso, não trazem alívio”.

As alterações metodológicas na série do PIB anunciadas hoje, na verdade, são de dois tipos distintos. O primeiro é a adaptação das Contas Nacionais brasileiras ao novo padrão da ONU, de 2008. Algumas das mudanças mais conhecidas do chamado SNA 2008 da ONU são a de incluir pesquisa e desenvolvimento (P&D) e prospecção mineral nos investimentos do PIB.

O segundo são uma série de aprimoramentos e inclusões ligadas às Contas Nacionais brasileiras especificamente, com destaque – em termos de impacto na série do PIB – para a incorporação das informações das pesquisas estruturais de Comércio, Indústria, Construção e Serviços nos resultados definitivos de 2010 e 2011.

No caso da revisão do crescimento em 2011, Borges avalia que as causas do salto de 1,2 ponto porcentual tenham se dividido aproximadamente meio a meio entre a mudança para o SNA 2008 (que aumentou o PIB em diversos países que já o adotaram) e a inclusão das pesquisas estruturais.

Em 27 de março, o IBGE vai divulgar os PIBs trimestrais no padrão SNA 2008, de 1995 ao último trimestre de 2014. Isso não inclui a incorporação das pesquisas estruturais, que entra no PIB anual definitivo. Em 27 de novembro, finalmente, serão divulgados os PIBs definitivos de 2012 e 2013, com a inclusão daquelas pesquisas. Borges observa que apenas nessa data ficará claro se suas projeções foram acertadas, mas no final de março já se poderá ter uma noção, pelo efeito da mudança para a nova metodologia da ONU. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/3/15, quarta-feira.

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