O poder cumulativo da “ração diária” de dólares

Fernando Dantas

23 de agosto de 2013 | 21h33

Luiz Fernando Figueiredo, sócio fundador da Mauá Sekular Investimento, vê um “poder cumulativo” na ração diária de US$ 500 milhões de swaps cambiais, de segunda a quinta-feira, mais a linha de dólares de US$ 1 bilhão às sextas.

“Saímos de uma situação de pancada no mercado para uma situação de água mole em pedra dura”, ele diz.

Figueiredo lembra-se da crise cambial de 2002, de nervosismo eleitoral com a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas, e em que o dólar tocou o nível de R$ 4. Na época, o economista era diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), comandado por Armínio Fraga, e participou do enfrentamento da crise.

“Nós fizemos um programa de ‘ração diária’, só que era dez vezes menor, de apenas US$ 50 milhões; de início, fomos atropelados pelo mercado, mas me lembro depois, quando começou a ter efeito, de uma nota na Broadcast que dizia justamente que o poder cumulativo da ração diária tinha feito o dólar despencar”, recorda-se Figueiredo.

A ‘ração diária’ de 2002 era no mercado à vista, mas isso se justificava, segundo o ex-diretor do BC, porque havia “um rombo no balanço de pagamentos”, e, portanto, o mercado precisava de dólares físicos.

Hoje, ele vê uma situação inteiramente diferente. Figueiredo diz que o fluxo líquido do balanço de pagamentos em 2013 está positivo em US$ 7,8 bilhões. Em agosto, pelas contas da Mauá Sekular, há uma saída de apenas cerca de US$ 300 milhões.

A demanda agora, para o economista, é inteiramente de hedge, o que fica claro numa virada de aproximadamente US$ 30 bilhões nas posições do mercado futuro na BM&F.

“Tem muita gente fazendo hedge, investidores estrangeiros, empresas, pessoas físicas, quem tem dívida lá fora ou estrangeiros que têm ativos no Brasil”, ele acrescenta.

Figueiredo acha que, além do contexto internacional, com a perspectiva de redução da política monetária superexpansionista nos Estados Unidos, o Brasil sofre um problema de confiança, que explica por que a desvalorização do real tem sido tão aguda.

“É uma crise de confiança que está menos relacionada com como estamos hoje – na verdade, os fundamentos não são ruins –, mas sim com o temor de que a política econômica gere fundamentos piores lá na frente”, ele diz.

Figueiredo nota que a dinâmica da turbulência atual deve melhorar os fundamentos da economia brasileira, ainda que de “uma forma ruim”. A se manterem as condições financeiras de hoje, a Mauá Sekular estima haver uma chance de 70% de recessão entre o final deste ano e o início do próximo.

A desaceleração econômica, para o ex-diretor do BC, pode ter um impacto positivo sobre a inflação e também contribuir para a redução do déficit em conta corrente – neste último caso, em combinação com um real mais desvalorizado. “Não é pelas boas razões, mas haverá um ajuste”, ele reflete.

Mesmo do ponto de vista fiscal, Figueiredo acha que o País está numa situação muito sólida para enfrentar a atual crise. O economista considera que, com reservas acima de US$ 370 bilhões, o governo pode “tranquilamente fazer entre US$ 100 bilhões e US$ 150 bilhões de swaps cambiais (ele lembra que o anúncio de hoje é um piso, e que o BC deixou claro que pode fazer mais, caso necessário)”, e ainda vender de US$ 100 bilhões a US$ 120 bilhões em reservas se for preciso.

Se isto acontecer, a posição credora líquida em dólares do governo vai ser reduzida, mas, na verdade, estaria sendo “travada” uma redução da dívida líquida como proporção do PIB dada exatamente pela desvalorização, que torna a posição credora em dólares mais valorizada (se o Brasil mantivesse inteiramente sua posição credora líquida em dólares, e o real voltasse a se valorizar, a redução da dívida líquida dada pela valorização da moeda americana seria revertida).

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News  Broadcast

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