O poder das ideias

Efeito de apenas consertar a política econômica pode estar se revelando mais poderoso do que a maioria supunha.

Fernando Dantas

20 de janeiro de 2017 | 20h19

O imprevisível presidente Donald Trump tomou posse em mais um dia positivo para os mercados brasileiros, com a bolsa em alta e dólar e juros em queda. A trágica morte do ministro Teori Zavascki do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro relator da Lava-Jato, que embola ainda mais o grande escândalo que devasta o sistema político, parece não ter tido maiores impactos no ânimo dos investidores. A política turbulenta, tanto no plano internacional quanto no doméstico, não dá mostras de afetar o sentimento positivo em relação aos ativos brasileiros.

Evidentemente, o quadro continua bastante frágil para o governo do presidente Michel Temer. Sua popularidade é extremamente baixa, e ele tem pela frente o desafio gigante de aprovar a reforma da Previdência, para o qual vai contar apenas com sua capacidade de manobrar internamente os jogos de interesse do Congresso e com a “pressão moral” sobre os parlamentares do establishment econômico e parte da elite intelectual.

Por outro lado, a oposição, que até agora está apática e não conseguiu estender para além da militância habitual a campanha do “Fora Temer”, terá na reforma da Previdência uma oportunidade ímpar para galvanizar a insatisfação popular em um movimento mais maciço de rejeição ao governo. Afinal, diferentemente do teto dos gastos, as mudanças na Previdência afetam diretamente imensos grupos da população, num momento em que a recessão e o desemprego já atiçam a insatisfação econômica.

Entretanto, apesar de um risco dessa magnitude, e do alto nível de incerteza na arena internacional, o bom momento do mercado brasileiro parece apontar a grande diferença que faz a qualidade da política econômica.

E essa é uma constatação nada óbvia diante do aumento do pessimismo em relação ao País, tanto em termos conjunturais quanto estruturais, na esteira da terrível crise econômica vivida pelo Brasil desde 2015. O diagnóstico sobre a inviabilidade fiscal do “contrato social” distributivista celebrado na Constituição de 1988 e uma espécie de “naturalização” do populismo como único caminho viável para o Poder – consolidada nas sucessivas vitórias do PT – compuseram um quadro no qual a superação da atual crise parece quase impossível.

No entanto, de forma surpreendente, o simples fato de se colocar em marcha uma política econômica racional, mesmo diante de tremendas incertezas quanto à consecução de objetivos vitais desta política (como a reforma da Previdência), parece ter um efeito muito poderoso sobre as expectativas dos agentes econômicos. A impressão é de que havia um prêmio em termos de “crédito de confiança” para o Brasil que o analista mais sóbrio não adivinharia num país com problemas estruturais tão difíceis de resolver.

É verdade que o Brasil deu alguns sinais de robustez que talvez tenham sido pouco apreciados diante da situação fiscal calamitosa. O principal deles foi a grande virada do setor externo, com a rápida redução do déficit em conta corrente de 4,5% do PIB para cerca de 1%, por meio do funcionamento eficiente do câmbio flutuante (ainda que com efeito fortemente recessivo), e mantendo-se um elevado nível de reservas internacionais.

Agora, outra espécie de tabu do pessimismo cai por terra, com a inflação aparentemente convergindo para valer para o centro da meta em 2017, algo que parecia impossível para a maioria dos analistas durante a maior parte do ano passado.

Dessa forma, tudo indica que a velha e surrada lição de casa de o BC perseguir de fato a meta de inflação, de se colocar em prática uma política fiscal que leve a sério a solvência pública, de dar atenção à agenda microeconômica e de nomear executivos competentes para estatais não financeiras e financeiras tem impactos inesperadamente fortes nas expectativas econômicas – mesmo numa situação ainda extremamente difícil, inclusive em termos políticos, como a brasileira.

Invertendo a ordem do argumento, é impressionante o estrago que ideias econômicas equivocadas podem fazer quando são abraçadas pelos que chegam ao poder. Num país em que a corrupção, de forma compreensível e correta, é sempre o centro das discussões sobre os males nacionais, é bom não esquecer o grande poder das ideias certas e erradas. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada em 20/1/17, sexta-feira, pelo Broadcast.

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