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O populismo dos ricos

Sucesso de Trump e Sanders nas eleições primárias dos Estados Unidos é fato mais emblemático de tendência que preocupa as elites globais.

Fernando Dantas

12 Fevereiro 2016 | 10h12

Enquanto a América Latina luta para superar a sua forma clássica e recorrente de populismo, o fenômeno espraia-se – com características diferenciadas – para o mundo rico. Esta é, pelo menos, a interpretação corrente entre destacados porta-vozes do establishment econômico e político, como os principais articulistas do jornal britânico Financial Times.

O principal emblema da maré populista nos países ricos é o sucesso das pré-candidaturas do republicano Donald Trump e do democrata Bernie Sanders na temporada de escolha dos candidatos à presidência dos Estados Unidos. São dois políticos que fogem do figurino apreciado pelo establishment de seus respectivos partidos.

Trump, empresário, ricaço espalhafatoso e showman de programa de televisão, está fazendo a campanha mais politicamente incorreta nos Estados Unidos desde que se tem notícia de que tal conceito existe. Ele já atacou virulentamente mexicanos, muçulmanos e outras minorias, além de agressões machistas contra mulheres.

Curiosamente, o mulherengo e hedonista Trump não faz nem um pouco a linha de conservadorismo religioso que pareceu ter tomado conta de boa parte das bases do partido Republicano nas últimas décadas. Ainda assim, ele venceu as primárias de New Hampshire de forma massacrante, deixando candidatos de feitio carola bem para trás.

Em recente artigo no site Politico, Tucker Carlson, comentarista político conservador da Fox News, observou que a direita cristã percebe que as desajeitadas demonstrações de religiosidade de Trump durante a campanha não convencem. Mas o que eles buscam no pré-candidato, na verdade, segundo Carlson, é um “guarda-costas, alguém para protegê-los de crescentes (e reais) ameaças à sua liberdade de discurso e de culto”. No texto, o comentarista deixa claro que a proteção se estende a barrar imigrantes que – na sua visão – afetam o estilo de vida e a oferta de emprego dos cidadãos comuns, mas não das elites em bairros nobres que dominam a vida partidária nos Estados Unidos.

Já Sanders, autodeclarado socialista, vai na contracorrente da grande virada ao centro que caracteriza a estratégia do Partido Democrata desde a presidência de Bill Clinton. Quando Barack Obama se elegeu, na esteira de uma onda de entusiasmo cívico com o primeiro presidente negro e o seu vibrante slogan “yes, we can”, os “liberals” americanos (a expressão nos Estados Unidos têm o sentido de esquerda) alimentaram a esperança de que o novo presidente faria um governo ao gosto deles.

Obama, porém, apenas depurou o centrismo dos anos Clinton, trazendo renomados economistas “mainstream” (corrente majoritária) para a sua equipe econômica; negociando a reforma possível do sistema de saúde; e mantendo um firme combate ao terrorismo pela intensificação dos ataques com drones e a “surveillance” (espionagem eletrônica maciça), apesar dos grandes protestos da esquerda nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Sanders, ao contrário, promete ser um candidato com uma plataforma realmente liberal – no sentido norte-americano – e dar combate sem tréguas à desigualdade, defendendo o aumento dos impostos das grandes empresas e dos muito ricos, a universalização da saúde pública, aumentos do salário mínimo, mais investimentos públicos, fechamento da economia, reforço aos sindicatos, dividir em pedaços menores os grandes bancos, etc.

Muitos pontos desse programa podem parecer razoáveis para um candidato mais à esquerda. Porém, dentro do espectro da política norte-americana e da forma como vêm sendo apresentados por Sanders, trata-se de uma plataforma irrealista que pode mais atrapalhar do que ajudar a causa liberal, na visão – por exemplo – de alguém insuspeito de simpatias conservadoras como Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia. O problema, porém, é que as ideias simples e diretas aos pontos que preocupam os eleitores, professadas por Sanders, criaram um clima de entusiasmo popular que contrasta com a campanha mais fria e cerebral de Hillary Clinton.

Para além dos Estados Unidos – onde, ademais, ainda é muito cedo para prever a vitória de qualquer pré-candidato nas temporadas das eleições primárias –, a onda populista no mundo rico é identificada também no crescimento da extrema direita na Europa (ou da extrema-esquerda em alguns casos, como Grécia e Espanha). A enorme onda de imigrantes do Oriente Médio e da África ao Velho Continente, associada aos recorrentes atos terroristas, com os de Paris, naturalmente estimula o radicalismo e a defesa das soluções simples, mais erradas.

De maneira mais geral, alguns analistas do establishment, como o renomado Martin Wolf, principal colunista econômico do Financial Times, acham que as elites globais se insularam e perderam contato com a realidade da vida das camadas médias – e a ascensão do populismo é consequência disto. Wolf propõe controlar a imigração, estimular a demanda na área do euro, restringir o setor financeiro, promover a competição, tornar os impostos mais justos, diminuir o poder dos acionistas e conter o poder do dinheiro na política. O risco de o populismo triunfar na sua visão, está no fato de que esta é uma história conhecida “que sempre termina muito mal”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/2/16, quinta-feira.