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O porquê de a meta não mudar

Duas visões sobre a manutenção da meta de inflação em 4,5% para 2018.

Fernando Dantas

06 Julho 2016 | 23h37

A manutenção da meta de inflação em 4,5% para 2018 pode ser lida, de acordo com a visão de alguns analistas, como parte da lógica da primeira importante escolha tomada pelo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, ao anunciar que perseguiria o centro da meta já no ano calendário de 2017, dispensando o uso do mecanismo da meta ajustada.

Caso se optasse pela meta ajustada, uma redução da meta de inflação de 2018 poderia servir para contrabalançar a sensação de que o BC de Ilan teria adotado uma postura “dovish” em termos de convergência para o centro da meta. Se a ideia, porém, é de tentar atingir os 4,5% no final do próximo ano, uma redução da meta para 2018, na visão mencionada acima, criaria uma grande e talvez desnecessária dificuldade adicional para o BC.

Especificamente, tornaria mais difícil entregar algo que a autoridade monetária não está anunciando – e nem poderia fazê-lo –, mas que é fundamental para a estratégia geral, tanto em termos econômicos como políticos, do governo do presidente em exercício, Michel Temer: um ciclo longo e expressivo de redução dos juros.

Por esse raciocínio, a possibilidade – bastante razoável, ainda que obviamente não garantida – de o câmbio se manter num patamar valorizado poderia sancionar um ciclo bastante significativo de redução da Selic. Isto se daria tanto em termos dos objetivos de política monetária de 2017 – chegar aos 4,5% – quanto daqueles de 2018, de evitar que a inflação ficasse abaixo da meta. Afinal, no cenário de referência o IPCA já cai para 4,2% ao fim do segundo trimestre de 2018.

Nesta ótica, se a meta de inflação fosse reduzida para 2018, isto significaria colocar um novo e pesado desafio para o BC. A autoridade monetária teria muito mais dificuldade de justificar o ciclo de afrouxamento monetário se o objetivo fosse o de levar o IPCA para 4% ou 4,25%, por exemplo, já em 2018.

Assim, o compromisso de atingir 4,5% em 2017, caso efetivamente perseguido, já seria suficiente para recuperar a necessária credencial anti-inflacionária do BC. Colocar um obstáculo a mais a ser galgado em 2018 seria visar um ganho adicional talvez desnecessário de reputação, pondo em risco o deslanche de um círculo virtuoso de queda de juro e recuperação da economia (com impactos positivos na política fiscal e na dinâmica da dívida pública) que é, na verdade, a melhor chance do governo Temer em termos políticos.

Mas há uma visão alternativa sobre a redução da meta de inflação já em 2018, que privilegia o papel das expectativas. Um analista ouvido pela coluna – bastante cético não só sobre a situação do BC, mas também sobre a política fiscal e a as chances de sucesso do governo Temer em geral – considera improvável que a meta de 4,5% seja atingida em 2017.

Mas ele acrescenta que, se estiver errado, e aconteçam as surpresas de grandes e efetivos avanços na política fiscal, e de que o BC atinja a meta do próximo ano, haverá um enorme ganho de credibilidade na autoridade monetária. Neste caso, se a meta tivesse sido reduzida para 2018, provavelmente as expectativas caminhariam para o novo valor em função da capacidade de ancoragem da autoridade monetária.  Neste sentido, não ter reduzido a meta de 2018 poderia indicar alguma insegurança do BC, e explicaria porque o novo presidente, Ilan Goldfajn, sinalizou que a redução pode acontecer em 2019. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/7/16, segunda-feira.