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O protecionismo de Warren

Senadora que desponta como possível candidata democrata, e com boas chances de se eleger, também é protecionista, como Trump, mas com uma pegada mais "social".

Fernando Dantas

31 de outubro de 2019 | 20h51

Crescem as apostas na vitória dos democratas nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2020. É claro que será uma disputa dura, e que não há favoritos absolutos. Especialmente porque o complexo e arcano sistema eleitoral americano joga os votos decisivos, em eleições apertadas, para punhados de eleitores em estados específicos.

Ainda assim, as apostas no site Predictit, por exemplo, indicam cerca de 54% de chances de vitória dos democratas.

E, neste campo político, quem vem despontando como a estrela da vez é a senadora Elizabeth Warren, embora a disputa pela candidatura democrata ainda esteja bastante em aberto, com o ex-vice-presidente Joe Biden bem colocado também.

De qualquer forma, Warren parece encarnar melhor uma “nova esquerda” nos Estados Unidos, com propostas duras de taxação dos mais ricos e de restrições a Wall Street.

Uma questão relevante, porém, é qual seria a plataforma de Warren naquela área em que justamente o presidente Trump mais causou transtornos à economia global: a política de comércio exterior.

Por uma questão de estilo, não se imagina que uma ou um presidente democrata partiria para uma confrontação agressiva e feroz contra a China, causando o conflito que hoje mais contribui para o aumento da incerteza global e para a desaceleração da economia mundial.

Nesse sentido, a vitória democrata, mesmo que a candidata fosse Warren, poderia trazer alívio para a economia mundial. Essa é a visão, por exemplo, de Bráulio Borges, da consultoria LCA e do FGV/Ibre.

“Biden e Warren estão mais ao centro do que Trump, e uma eventual vitória democrata poderia contribuir para uma queda mais expressiva da incerteza global a partir de 2021 – para mim, a eleição americana será o principal evento de 2020”, diz o analista.

Mas essa interpretação está longe de consensual. Wall Street e o big business nos Estados Unidos têm revelado bastante temor do que veem como o excessivo esquerdismo de Warren. Justificada ou não, essa apreensão pode ser um fato corrosivo para a confiança.

Porém, é justamente na política comercial que uma eventual presidente Warren levanta mais interrogações.

Em documento sobre suas propostas comerciais, do final de julho, Warren indica que, como Trump, também é protecionista. Só que com uma significativa torção retórica e possivelmente de ênfase: segundo a senadora, a sua plataforma comercial é de defesa das famílias americanas, e não das corporações, o que ela acusa o atual presidente de fazer.

Trump, claro, nunca disse que defendia as grandes empresas, mas sim os trabalhadores. Porém, como se verá adiante, Warren reforça o caráter “social” do protecionismo em seu discurso.

Não há nada muito simpático ao livre comércio no longo texto da senadora, embora também não seja um ataque frontal a ele.

O que há é muitos e muitos condicionantes, e grande parte deles são tipicamente o que países ricos utilizam quando querem frear fluxos de mercadorias do mundo emergente.

Assim, para a pré-candidata, qualquer país que deseje fazer acordo comercial com os Estados Unidos têm que respeitar o núcleo de direitos trabalhistas da Organização Mundial do Trabalho; respeitar direitos humanos, de acordo com os relatórios do Departamento de Estado americano, incluindo direitos indígenas, de trabalhadores imigrantes e outros grupos vulneráveis; reconhecer e implementar liberdade religiosa, novamente de acordo com os relatórios do Departamento de Estado; participar do acordo de Paris e ter um plano verificável de cumprimento das metas ambientais; eliminar todos os subsídios aos combustíveis fósseis (é bom lembrar que aumentos do preço da gasolina no mundo emergente frequentemente levam a revoltas populares, como recentemente no Equador); além de questões ligadas à corrupção, taxação de multinacionais e manipulação cambial.

A maior parte desses objetivos é nobre para qualquer pessoa civilizada. Entretanto, a questão delicada é a sua imposição pela maior potência do planeta (muitas vezes nos termos decididos pelos próprios Estados Unidos) em negociações comerciais com países que têm muito menos recursos e produtividade para absorver competitivamente tamanha carga de compromissos trabalhistas, sociais, ambientais etc.

Na verdade, as condicionantes listadas acima são apenas parte do arsenal potencialmente protecionista que Warren pretende atrelar às relações comerciais dos Estados Unidos.

Ela menciona também “Buy American”, estímulo à indústria nacional, regras de origem, proteção previdenciária e pagamento igualitário para os sexos como objetivos dos acordos comerciais dos Estados Unidos.

Warren pretende subsidiar os “produtos verdes”, taxando compensatoriamente importações de empresas com processos intensivos em carbono. A pré-candidata menciona ainda um aperto no controle do cumprimento dos padrões americanos de segurança alimentar na importação de comida, com reforço das inspeções.

Outra proposta da pré-candidata é adicionar ao conceito (da Organização Mundial de Comércio, OMC) de “economia não de mercado”, que pode sofrer sanções mais fortes que as de mercado, a figura da “economia não-sustentável”, que também estaria sujeita a penas mais pesadas por práticas ambientais e trabalhistas lesivas.

E a senadora quer criar uma nova divisão no órgão de negociações comerciais dos Estados Unidos (USTR) focada no cumprimento das obrigações dos parceiros, além de colocar adidos nas Embaixadas americanas para fiscalizar condições trabalhistas nos demais países.

Warren também propõe gatilhos automáticos para iniciar investigações de práticas comerciais desleais, e um processo de negociação comercial muito mais aberto e transparente, de que toda a sociedade americana (mas também os inevitáveis lobbies) participe.

Em resumo, os instintos protecionistas, tão criticados em Trump, parecem estar todos lá na visão de política comercial de Warren, embora apresentados num figurino mais atraente para o público do Primeiro Mundo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/10/19, quarta-feira.

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