O PT diante do seu maior desafio

Partido dos Trabalhadores precisa acabar com seu atraso ideológico e abraçar sem ambiguidades o capitalismo democrático, onde tem um papel importante de brigar por redistribuição. É preciso abandonar também papel de vítima das instituições, o que acaba sendo justificativa para agir fora das regras do jogo.

Fernando Dantas

09 Outubro 2015 | 18h16

O Partido dos Trabalhadores enfrenta o pior inferno astral da sua história. Paradoxalmente, é momento em que pode se reformular para permanecer como um protagonista da vida política brasileira.

O PT foi fundado em 1980 com forte influência marxista das suas principais lideranças intelectuais, apenas uma década antes de o chamado socialismo real ruir. Ainda no final da década de 80, na véspera da queda do Muro de Berlim, personalidades ligadas ao PT faziam o elogio do “socialismo eficiente” da Alemanha Oriental. Ainda hoje, correntes do partido nutrem simpatia pelo socialismo ditatorial cubano.

Dessa forma, o PT sempre esteve marcado por um atraso ideológico em relação ao papel de um partido de esquerda no capitalismo democrático. Isso se refletiu no combate cerrado a todas as medidas do ajuste estrutural do Brasil nos anos 90, incluindo o Plano Real. Era como se a imagem idealizada de um socialismo anticapitalista não mais alcançável – inclusive porque a experiência história mostrava ser incompatível com a democracia – impedisse o partido de fazer as pazes com a realidade.

Quando finalmente Lula chegou ao poder em 2003, premido por forte crise econômica, houve uma conversão oportunista e velocíssima para a socialdemocracia fiscalmente responsável. Ao contrário do que ocorreu com vários partidos de esquerda em outros países, a virada ao centro não foi precedida de um longo e penoso processo de reflexão e autocrítica.

Ainda assim, a mudança abriu o caminho para o momento mais glorioso do PT. O partido redefiniu-se como o defensor de um capitalismo pujante com forte viés distributivo. Lula tornou-se um modelo cultuado não só pela esquerda, mas também pelo establishment econômico-financeiro internacional, como pôde ser visto nas suas triunfais participações no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Essa moldura reluzente, entretanto, ocultava diversos problemas no interior do governo e do partido. A falta de autocrítica antes da conversão fez com que se deslizasse, sem maiores discussões, da política econômica ortodoxa de Palocci para a gradativa incorporação de elementos heterodoxos com Guido Mantega, que culminariam na desastrosa nova matriz econômica.

O crescimento fácil da economia e da arrecadação nas asas do cenário externo favorável, com a alta das commodities, empurrou o governo petista na direção de resgatar as críticas inflamadas à política econômica dos anos 90 – como os ataques às privatizações –, que passaram a ser usadas como armas nas eleições presidenciais. O processo de atualização ideológica, para um partido que nasceu atrasado neste campo, foi interrompido e até revertido.

Como há defasagem entre o tempo da política econômica e seus efeitos sobre a sociedade e as empresas, o auge da euforia lulista ocorreu em 2010, ano de eleição de Dilma Rousseff, quando a economia cresceu mais de 7%.  Pouco antes, o País atravessara sobranceiro a turbulência da grande crise global, classificada por Lula como “marolinha”.

No jogo político, o ranço marxista e a herança de conceitos como o da “democracia burguesa” fizeram do PT um participante com permanente desconfiança de que as instituições são enviesadas contra si próprio, e em favor de seus adversários à direita, como o PSDB. Este sentimento de se sentir o tempo todo “injustiçado” talvez seja uma das explicações para a licença que o PT se autoconcedeu para jogar fora das regras, e que deu origem à avassaladora onda de escândalos que abate o partido.

O inferno astral de hoje nada é mais do que a explosão no colo do governo Dilma, no início do seu segundo mandato, das piores consequências de todos os problemas mencionados acima. No front econômico, o governo é obrigado a conduzir um longo e profundamente doloroso ajuste ortodoxo nos moldes das piores experiências dos anos 90, e sem perspectiva de rápida retomada da economia. Aos poucos, a demonizada pauta de reformas estruturais, incluindo privatizações, vai fazendo entrada forçada no receituário de política econômica do governo.

Na área política, os escândalos e a inconsistência política de uma base que vai da extrema esquerda à extrema direita minam a governabilidade e trazem o fantasma da interrupção do mandato.

O PT, porém, está longe de morto. Como observou o cientista político Cesar Zucco Jr. em recente entrevista a esta coluna, o PT talvez seja a única agremiação do sistema partidário brasileiro que tem na dimensão adequada uma característica bastante presente em muitos dos partidos protagonistas das modernas democracias: a capilaridade do apoio em sindicatos e em todo o tipo de associação e agrupamento da sociedade civil organizada.

Adicionalmente, pela origem, pela história e pelo perfil socioeconômico dos seus eleitores, o PT é o partido de expressão nacional mais vocacionado a dar peso à questão da igualdade, num País marcado por imensa injustiça social – uma posição que sempre lhe renderá potencial eleitoral.

O PT, entretanto, precisa urgentemente eliminar de uma vez por todas o seu atraso ideológico, e se redefinir como um partido de esquerda que defende sem ambiguidades o capitalismo democrático, mas com políticas sociais agressivamente distributivas. Isto inclui, claro, apoiar de forma firme e clara o ajuste dos ministros Levy e Barbosa. Além disso, precisa aderir plenamente às regras do jogo democrático e prestigiá-las, e abandonar de uma vez por todas o complexo de perseguição. Se o partido tiver coragem de se reformar e atualizar, vai encontrar a luz no fim do tenebroso túnel que hoje atravessa. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 9/10/15, sexta-feira.