O PT e a Venezuela

Ao apoiar Maduro, PT atiça as chamas de radicalismo e polarização que levaram a Jair Bolsonaro.

Fernando Dantas

07 de maio de 2019 | 18h23

Datada de 30 de abril, uma nota oficial do Partido dos Trabalhadores condena a “tentativa de golpe na Venezuela”. No texto, o PT atribui a tal tentativa “à oposição da direita golpista e antichavista”, que tenta “há anos derrubar o governo     democraticamente eleito do Partido Socialista Unido da Venezuela”. Logo adiante, a nota diz que o regime bolivariano na Venezuela praticou durante anos “políticas voltadas ao bem-estar da população e contrárias à exploração imperialista e das elites locais”.

A nota é assinada por Gleisi Hoffmann, presidente do PT, Humberto Mota e Paulo Pimenta, respectivamente líderes do partido no Senado e na Câmara, e por Mônica Valente, secretária de Relações Internacionais. É, portanto, um posicionamento superoficial, endossado pela cúpula do PT.

Na balbúrdia – para usar uma palavra na moda – política em que o Brasil mergulhou desde a posse do governo Bolsonaro, essa nota petista sobre a Venezuela passou despercebida. Mas não deveria. Afinal, o PT é muito importante na arquitetura institucional do Brasil, ocupando o posto de principal partido de oposição ao governo, que administrou o país durante quase 14 anos.

Caracterizar como “tentativa de golpe” o que Guaidó tentou fazer na Venezuela há poucos dias é o menor dos problemas da nota oficial do PT. Na geleia caótica em que se transformou a Venezuela, é de fato difícil dar nome aos bois. Qualquer legitimidade do governo de Maduro é para lá de questionável depois de todos os golpes e manipulações de que lançou mão para manter seu poder. Ainda assim, vá lá que se chame de “golpe” a tentativa da oposição de derrubar o virtual ditador com o apoio do Exército. Está-se aqui mais no campo da semântica do que da ética.

Realmente péssimo na nota do PT é o apoio claro a Maduro, a condenação da oposição e, principalmente, o elogio às políticas bolivarianas que provocaram a pior destruição socioeconômica de um país não envolvido em guerra desde pelo menos o final da segunda guerra mundial.

Sempre que se critica o apoio da esquerda brasileira ao chavismo, surgem argumentos como a boa relação dos Estados Unidos com a Arábia Saudita e sobre como a comunidade dos países, incluindo o Brasil, faz vista grossa para a ditadura chinesa.

Esse tipo de raciocínio não procede. Há um fator de proximidade que torna a posição sobre determinadas ditaduras mais graves do que outras. O PC do B tradicionalmente dá apoio à ditadura norte-coreana, o que é péssimo. Porém, ainda que a dinastia Kim, que domina o norte da península coreana desde o final da guerra civil do país, tenha perpetrado atrocidades incomparavelmente piores do que as dos militares brasileiros pós-64 (o que em nada reduz a culpa destes), para alguns escandaliza mais a admiração de Bolsonaro por Carlos Alberto Brilhante Ustra, condenado pela Justiça brasileiro por torturas praticadas durante o regime militar, do que alguma nota do PC do B em apoio à Coreia do Norte.

Esse fator proximidade vai além do mero efeito da distância, pelo qual a morte do vizinho nos afeta mais do que a de 100 seres humanos num país longínquo. Na verdade, a proximidade traz a cumplicidade real ou potencial. A influência da militância do PC do B nas matanças e horrores da Coreia do Norte é perto de inexistente, enquanto Bolsonaro é jovem demais para ter participado do pior da repressão nos anos de chumbo, mas dá a este grupo um apoio entusiástico e eficaz num momento em que as feridas abertas pela ditadura ainda estão longe de cicatrizadas.

É por isso que o apoio do principal partido da oposição brasileira a Maduro é ainda mais grave, por exemplo, do que o tradicional beneplácito petista em relação à ditadura de Cuba (o que não quer dizer que não seja uma postura muito errada). Cuba é uma situação consolidada há décadas e cujos desdobramentos futuros, na verdade, afetarão muito pouco o Brasil.

Já a Venezuela é um gigantesco desastre pulsante na nossa fronteira. Para além da questão das levas de imigrantes venezuelanos que o Brasil vem recebendo, a destruição do país por um regime tirânico e loucamente incompetente faz parte de uma onda de populismo latino-americano de esquerda iniciada na década passada, na qual o PT fez questão de embarcar – pelo menos no nível do discurso –, quando teria tudo para se diferenciar.

Muitos do que votaram em Bolsonaro alegam ter tido medo de que uma eventual vitória do PT “transformasse o Brasil numa Venezuela”.

Pessoalmente, acho esse argumento um exagero. Mas a questão aqui não é tanto a veracidade, mas a verossimilhança. Em escala muito menor, o PT no Brasil praticou políticas econômicas intervencionistas desastrosas e atacou sistematicamente instituições que representariam “o interesse das elites”, em oposição aos do povo, como a imprensa e o Judiciário.

O temor, mesmo infundado, de que, na sua eventual volta ao poder, o PT enveredasse pela trilha chavista compõe o contexto no qual milhões de brasileiros não radicalizados – que provavelmente nunca tinham ouvido falar de Olavo de Carvalho – votaram em Bolsonaro.

Quando o principal partido de oposição no Brasil dá as mãos a Maduro, atiça as chamas de radicalização que nos levaram ao momento atual, cujo exemplo recente mais grotesco são as diatribes insanas dos olavistas e dos filhos do presidente.

O PT se transporta do mundo anterior, em que fazia às vezes do protagonista de esquerda, ou centro-esquerda, contra os tucanos de centro, ou centro-direita, para o universo politicamente distópico da extrema-direita e da pior esquerda populista, em que ambos os lados se comprazem em disputar a primazia no grau de radicalidade e alucinação.

Pode ser até que faça sentido, taticamente, para o PT. Mas é péssimo para o País.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada em 7/5/19, terça-feira.

Tendências: