O que a indústria quer?

Lideranças industriais apoiaram a farra de subsídios e benefícios ao setor de 2011 a 2014, e se aproveitaram dela. Agora, todos criticam a política econômica do primeiro mandato de Dilma Rousseff. A dúvida é se o empresariado engajado no impeachment, e que se identifica com o "pato da Fiesp", vai lutar de agora em diante por uma agenda horizontal de reequilíbrio macroeconômico, racionalização tributária e melhora do ambiente de negócios; ou se, de acordo com o velho figurino, continuará a reclamar do câmbio e dos juros e a pedir proteção e benefícios.

Fernando Dantas

04 de maio de 2016 | 18h23

A intensa e explícita participação da Fiesp nos movimentos pró-impeachment e a proximidade do presidente da entidade, Paulo Skaf, do vice-presidente Michel Temer levantam a questão sobre como será a política industrial caso de fato o Senado opte por interromper o mandato da presidente Dilma Rousseff.

A crise industrial é um dos traços marcantes do atual desastre econômico, com uma queda de cerca 20% da produção física da indústria de transformação nos três últimos anos. Só que este mergulho recente coroa negativamente uma tendência desindustrializante de prazo bem mais longo. A participação da indústria de transformação no PIB recuou de um pico histórico de 18,9% em 1973 para 11,4% em 2015.

Hoje, muitos empresários da indústria paulista e a própria Fiesp se unem nas críticas à política econômica de Dilma. Mas é importante não esquecer que não faltaram aplausos e a pressão dos lobbies quando a presidente tomou muitas das iniciativas que atualmente são execradas, como o plano de reduzir as tarifas de energia, o agigantamento do BNDES e a política das “campeãs nacionais”, a desoneração da folha, as isenções de IPI na compra de automóveis e eletrodomésticos, etc.

Curiosamente, essa política de incentivos ao setor privado via subsídios e isenções virou uma órfã ideológica, e hoje é desdenhada tanto pelos ortodoxos, que a veem como parte da combatida nova matriz econômica, quanto por muitos heterodoxos, que a consideram a forma errada de perseguir um objetivo louvável.

Na minha coluna publicada no jornal Estado (29/4, sexta-feira) e no Broadcast, o economista Sergio Gobetti, do Ipea, comenta como o espaço fiscal que no governo Lula foi utilizado para aumentar o investimento público federal acabou sendo empregado para incentivar setores da economia no primeiro mandato de Dilma Rousseff, com destaque para a indústria. A piora brutal do desempenho econômico entre os dois períodos não é uma prova de que a primeira alternativa é melhor do que a segunda, mas é uma indicação.

A se conversar com os economistas liberais que, ainda que não tenham participado diretamente na elaboração do pré-plano de governo “Ponte para o Futuro”, vêm há anos semeando boa parte das ideias contidas no documento, a nova ordem econômica contemplaria um BNDES muito mais enxuto, o máximo possível de reoneração tributária, redução drástica ou eliminação das políticas de conteúdo nacional, algum grau da abertura comercial unilateral, negociação mais efetiva de acordos de liberação comercial e outras medidas que reduzem benefícios à indústria e a expõe mais à competição internacional.

A grande dúvida é se a Fiesp apoiará uma agenda desse tipo, ou se vai insistir numa nova rodada de benefícios e subsídios, com o devido cuidado para que não pareça estar pedindo a reedição da demonizada política de 2011 a 2014.

Outro tema caro aos industriais brasileiros são os juros e o câmbio. São tradicionais e rotineiras as críticas do setor a todos os ciclos de aperto monetário do Banco Central (BC), e também aos momentos de valorização dentro da trajetória altamente oscilante do câmbio ao longo dos últimos anos.

Outra pergunta relevante é se a Fiesp e seus representados agora vão ter paciência e admitir que juros reais mais baixos (que reduzem também uma das forças que apreciam o câmbio, que é o diferencial com as taxas internacionais) têm que ser o coroamento de uma estratégia de combate à inflação e reequilíbrio macroeconômico, e não uma “bandeira” a ser cobrada do Copom à cada reunião do comitê.

Finalmente, na área fiscal, em que o “pato” da Fiesp tão bem simboliza a demanda de parte da sociedade brasileira por menos tributos, será que os representantes da indústria estão dispostos a contribuir, abrindo mão das receitas quase tributárias do Sistema S?

Há, enfim, uma série de interrogações sobre como evoluirão as demandas da indústria e a reação de um eventual governo Temer a elas. Ninguém é contra uma estratégia em que o relançamento da importante base manufatureira nacional se faria com a restauração da ordem macroeconômica e de uma trajetória satisfatória de crescimento, uma reforma tributária racionalizante e simplificadora, uma intensa agenda de melhoria do ambiente de negócios, uma política sofisticada de tecnologia e inovação, etc. Este, porém, é o caminho árduo e trabalhoso. O risco é que o governo e os industriais sejam tentados de novo a enveredar por atalhos que, como prova a histórica econômica brasileira, sistematicamente levam à ruína. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/5/16, terça-feira.