O que de fato mudou no Brasil?

Paulo Guedes diz que depois de 30 anos de centro-esquerda, país entrou numa fase de centro-direita. Quão profunda foi essa mudança? Será que ela mudou, por exemplo, a relação entre as forças que lutam pela reforma da Previdência e as que lutam contra?

Fernando Dantas

07 Fevereiro 2019 | 00h29

A chegada de Jair Bolsonaro ao poder representou uma enorme mudança no arcabouço político brasileiro, que provavelmente ainda demorará muitos anos para se compreendida e absorvida pelos acadêmicos, pensadores e analistas.

Por vezes se tem a sensação de que nada será como antes, mas esta é uma visão irrealista. Por mais profunda que seja uma mudança, sempre há aspectos da realidade social que resistem, que permanecem como sempre foram ou que mudam num ritmo muito mais lento do que o do turbilhão da política. A grande questão da análise política neste início do governo Bolsonaro, com profundas implicações na economia, é justamente a de tentar entender o que mudou e o que não mudou.

Na reiterada formulação de Paulo Guedes, o ministro da Economia, depois de trinta anos pós-redemocratização de orientação socialdemocrata de centro-esquerda, o pêndulo mudou e o Brasil entrou num período de centro-direita.

Se for isso mesmo, trata-se de uma mudança e tanto. Guedes parece apontar para algo mais profundo do que normalmente se associa a alternâncias entre governos de centro-esquerda e centro-direita.

A abordagem convencional é programática. Depois de escolher governos proponentes de maior intervenção e distribuição, o eleitorado resolveu experimentar mais liberdade econômica e meritocracia. No lado de valores, optou-se por testar um cardápio mais tradicionalista, depois de décadas de liberalismo.

Mas viradas dessa natureza não são necessariamente como a escolha de produtos alternativos na prateleira de um supermercado. A mudança descrita acima pode ser a manifestação político-eleitoral de deslocamentos em camadas psicopolíticas e psicossociais mais profundas da sociedade.

É claro que Guedes pode estar errado e o que houve foi apenas uma alternância na preferência programática do eleitorado neste momento, que pode virar de novo na próxima eleição. Mas quando ele fala de trinta anos de socialdemocracia seguidos de uma virada para a centro-direita, o sentido parece outro, mais geológico.

De fato, desde 2013, a sociedade brasileira viveu uma montanha-russa de movimentos intensos e surpreendentes, que embaralharam todas os discursos e interpretações tradicionais do período pós-redemocratização.

Começou com as manifestações daquele ano e enveredou num enredo violento que incluiu o impeachment, o acirramento da Lava-Jato para um nível sem precedentes, a implosão do PSDB e do centro, o enfraquecimento da esquerda, a ascensão de uma direita agressiva e revisionista da ditatura militar que se acreditava enterrada nas brumas do passado, etc.

O modelo do presidencialismo de coalizão, a mais sofisticada interpretação da dinâmica política pós-redemocratização, foi posto de pernas para o ar, com um governo que simplesmente resolveu ignorar completamente os seus ditames.

Em águas nunca dantes navegadas, curiosamente, o benefício da dúvida pode encolher ou espichar de maneira exponencial. Se tudo é diferente, tudo por dar errado, mas também pode dar certo.

Qualquer outro governo anterior do período da redemocratização que estivesse prestes a encaminhar uma dura reforma da Previdência nas condições atuais de Bolsonaro seria alvejado por forte ceticismo.

Ok, é início de governo, teórica lua de mel, ponto a favor. Mas acaba por aí. O capital político já pode estar sendo consumido pelo grave escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro, que pode crescer nos próximos meses, quando a reforma estiver tramitando, à medida que se desenvolva a investigação.

O governo não fez qualquer esforço aparente para distribuir cargos e verbas de forma equânime entre aliados que se comprometam a votar pela reforma, como reiteradamente vem notando o cientista político Carlos Pereira.

A articulação política de Rogério Marinho, secretário especial de Previdência, pode ser muito competente, como já se notou neste espaço, mas faltou combinar com o resto do governo. O vazamento de uma versão da reforma e a cacofonia pública que seguiu nas declarações de Guedes, Onyx e Mourão dão a impressão de que a estratégia política escolhida para a Previdência é a de avançar em meio ao caos e à zoeira.

Como poderia dar certo? Para responder a essa pergunta, é preciso voltar à indagação inicial desta coluna. O que mudou e o que não mudou no Brasil?

Será que a “grande virada” para a centro-direita anunciada por Guedes significa que também mudou a relação de forças entre quem luta por uma reforma como a da Previdência e quem a ela resiste? Será que, neste “Brasil diferente”, o rolo compressor do governo, o apoio de boa parte da elite formadora de opinião e uma atitude mais resignada da população resultarão num empuxo pró-reforma que vencerá a resistência das corporações públicas, da esquerda partidária e dos sindicatos (estes dois últimos atores bastante enfraquecidos nos últimos tempos)?

Ou será que certas características sócio-políticas brasileiras são ainda mais profundas que a mudança apontada por Guedes, permanecem as mesmas e impedirão ou diluirão até o ponto da insuficiência a reforma da Previdência de Bolsonaro?

Traços como o corporativismo e patrimonialismo entranhado das elites pública e privada e a suscetibilidade da maioria da população, secularmente carente, ao discurso populista de que a reforma nada mais é do que um capítulo adicional da velha história dos ricos jogando a conta no lombo dos pobres. A insistência do discurso da nova direita de que todos os problemas fiscais do País são culpa da corrupção não ajuda, diga-se de passagem.

De qualquer maneira, essas perguntas só começarão a ser respondidas quando a reforma efetivamente começar a tramitar no Congresso. Até lá, o mercado faz as suas apostas e (até agora) a sua festa.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/2/19, quarta-feira