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O que quer Ciro Gomes?

Candidatura de Ciro ganha força, impulsionada por vários trunfos. Mas falta de clareza na proposta econômica e acenos à heterodoxia podem trazer problemas na hora de governar, caso o ex-ministro da Fazenda e ex-governador do Ceará seja eleito.

Fernando Dantas

21 Maio 2018 | 18h46

Nas últimas semanas, a candidatura de Ciro Gomes à presidência da República pelo PDT ganhou fôlego.

O político com carreira no Ceará reúne alguns trunfos na sua corrida para o Planalto. Em primeiro lugar, apesar de ser um político tradicional, tendo passado por cargos públicos como deputado estadual e federal pelo Ceará, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará, ministro da Fazenda e da Integração Nacional, Ciro não está associado a escândalos dignos de nota – pelo menos até agora, na atual disputa presidencial em que corrupção virou um tema central, ele está aparentemente ileso.

Outra vantagem de Ciro é a de ser um político nordestino (embora paulista de nascimento), o que em tese o coloca em condições de disputar o enorme espólio eleitoral de Lula na região. Ele também construiu um processo consistente de afastamento da centro-direita já de algumas décadas, o que lhe dará autenticidade para “bater” no governo extremamente mal avaliado de Michel Temer.

Finalmente, Ciro tem uma reputação justificada de bom administrador nas suas passagens por cargos executivos e, inclusive, por sua atuação na fase de consolidação do plano Real como ministro da Fazenda. Para o eleitor comum, até pelo seu passado centrista, o candidato pedetista não evoca a imagem radical e por vezes assustadora dos candidatos do PSOL ou da ala mais à esquerda do PT.

É aqui, entretanto, que começam os problemas com a candidatura de Ciro Gomes. Politicamente, é importante para ele manter a diferenciação e até a hostilidade em relação à centro-direita, por vários motivos: herdar os eleitores de Lula, tentar fazer um acordo com o PT colocando um político do partido como vice e poder “colocar no mesmo saco (de pancadas)” o governo Temer e candidatos como Geraldo Alckmin, do PSDB.

A dificuldade, porém, é que, na atual conjuntura econômica e política do Brasil, a única forma de simultaneamente rejeitar Temer e sua política econômica e não assustar demais as elites produtoras e dirigentes é criar uma grande nuvem de fumaça – o que aparentemente Ciro vem fazendo.

Assim, o candidato tem assessores econômicos que soam razoavelmente confiáveis para empresários e investidores, ao mesmo tempo em que dá corda a uma corrente heterodoxa que sinaliza mexer no arranjo macroeconômico de metas de inflação e câmbio flutuante que, aos trancos e barrancos, sobreviveu tanto à era tucana quanto à petista.

Propostas economicamente sensatas – mesmo que politicamente pouco palatáveis –, como a CPMF e a tributação dos dividendos para complementar o ajuste fiscal, se mesclam com um discurso dúbio em relação à dívida pública e uma proposta de reforma da Previdência com capitalização que simplesmente ignora a conta impagável dos custos de transição.

Uma dúvida que assalta a todos os que acompanham a pré-candidatura de Ciro pode ser formulada da seguinte forma: até que ponto o candidato acredita de fato nas suas propostas que assustam mais o setor produtivo e o mercado financeiro, e até que ponto elas são puramente peças de propaganda eleitoral?

Qualquer resposta a essa pergunta é preocupante. Se ele de fato acredita e se eleger, o Brasil, após um breve período de volta à política econômica convencional a partir de 2015, vai embarcar de novo em um experimento heterodoxo – que não será uma repetição da nova matriz, mas que trará riscos também (sempre presentes quando se tenta reinventar a roda).

Na dúvida, é provável que os mercados reajam mal se Ciro se firmar como forte favorito. A reação será ainda maior se aumentar a percepção de que o candidato de fato acredita nessas ideias.

Por outro lado, se os sinais a favor da heterodoxia de Ciro forem apenas estratégia eleitoral, sem que o candidato de fato pretenda enveredar por esse caminho caso eleito, entramos novamente no terreno perigoso e combustível do estelionato eleitoral, que no passado já levou o PSDB a iniciar um longo exílio (ainda não terminado) do poder federal e o PT a sofrer o impeachment de Dilma.

Tudo indica que 2018 será um ano de ajuste econômico extraordinariamente duro e difícil, e a piora recente do cenário internacional só retira margem de manobra do próximo presidente. Temas indigestos como reforma da Previdência, lei de reajuste do salário mínimo, acordo sobre salários de funcionalismo, colapso fiscal de Estados e até o teto dos gastos (que talvez tenha que ser mudado sem destruir a sua característica de âncora fiscal) estarão inevitavelmente sobre a mesa. Um presidente eleito com uma campanha que negue essas dificuldades pode ter problemas muito graves para governar. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/5/18, segunda-feira.