O recado do Copom

Mercado está ligado em qualquer sinal da comunicação do Copom que possa (ou não) indicar possibilidade de novos cortes da Selic este ano.

Fernando Dantas

09 de maio de 2019 | 10h02

A aposta do mercado é quase unânime na manutenção da Selic em 6,5% na decisão a ser anunciada hoje (8/5, quarta-feira – a coluna foi publicada pelo Broadcast ontem) ao final da reunião do Copom. Mas as sinalizações que virão do comunicado, que é solto junto com a decisão, e da ata, a ser divulgada na próxima semana, estão mais abertas à discussão.

(esta coluna foi publicada ontem pelo Broadcast antes da divulgação, no fim do dia, do comunicado da reunião do Copom)

Uma corrente de economistas – alguns dos mais vocais não são do mercado financeiro – vem batendo na tecla de que a Selic deve voltar a cair. As razões são a recuperação econômica tão anêmica que quase não vale este nome, a inflação comportada (especialmente os núcleos), a enorme capacidade ociosa e possivelmente uma taxa real de juros neutra menor do que a sabedoria convencional e o BC julgam.

No mercado, quase ninguém espera que o Copom corte a Selic agora e a possibilidade de que sinalize claramente no comunicado que deve fazer isto ainda este ano também é vista como muito improvável.

Mas haveria também, em tese, a alternativa de que o BC, por meio do comunicado e da ata, apontasse na direção de um cenário em que um eventual novo corte da Selic se tornasse menos remoto.

Na verdade, isto poderia vir na forma de um reconhecimento de que a retomada está muito pior do que o esperado e de que há uma forte chance de que isto esteja ocorrendo em grande parte por causas que não são os efeitos remanescentes de choques de oferta do passado recente. Se chegasse até aí, a comunicação já deixaria implícita a ideia de que o grau de estímulo da política monetária deveria se tornar mais forte.

No entanto, é menos difícil que o comunicado do Copom traga a primeira parte da condição acima – apontar um grau ainda mais forte de frustração com a recuperação do que o já admitido pelo BC – do que a segunda, de reconhecer explícita ou implicitamente que o atual grau de estímulo não é adequado, e que deva ser acentuado.

A razão para não dar esse segundo passo é que o BC deixou bem claro na sua comunicação recente que a avaliação sobre se perduram ou não os efeitos dos choques de oferta do ano passado (greve dos caminhoneiros, pressão eleitoral no câmbio, crise argentina) é uma empreitada de médio prazo, e não de curto. Seria contraditório se o Copom indicasse no comunicado de hoje que já chegou a um veredito.

Há também novas ocorrências adentrando a equação do balanço de riscos do BC, composta (simplificadamente), no lado inflacionário, pelo cenário externo e pela perspectiva de aprovação ou não da reforma da Previdência; e, no lado desinflacionário, pela capacidade ociosa da economia.

Há pouco mais de uma semana, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, mencionou um novo personagem no risco externo, que são os riscos associados ao excesso de endividamento de empresas nos Estados Unidos e Europa. Não é uma menção que reforce o cenário de novos cortes da Selic, pelo contrário.

Por outro lado, a alta recente da inflação cheia, pelos fatores de oferta da elevação de preços de alimentos e combustíveis, pode não ser uma preocupação maior do BC no front do risco inflacionário, inclusive porque foi prevista com cerca de 45 dias de antecedência na comunicação do Copom – e não mudou as projeções de inflação para 2020 (que já deve dominar o horizonte inflacionário do BC) e 2021.

Há uma corrente de analistas que considera que o BC não vai (e não deve) fazer qualquer modificação relevante no comunicado hoje (em relação ao conteúdo da comunicação recente), e que, se mencionar um grau a mais de frustração com a retomada, será num contexto que claramente reforce a ideia de que a avaliação sobre a persistência dos choques passados ainda está em curso – o que, portanto, não sinalizaria qualquer alteração do cenário prospectivo para a Selic.

Essa é, por exemplo, a visão de Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX. Ela considera que a novela da votação da reforma da Previdência, com suas idas e vindas ao sabor da tumultuada gestão política do governo Bolsonaro, é decisiva demais para o futuro da política monetária para que o BC queira mexer no tabuleiro antes disso.

“Acho que eles vão manter o viés neutro à espera desse evento”, ela diz.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/5/19, quarta-feira.

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