O risco da inércia

Alexandre Schwartsman vê inércia inflacionária maior, e acha que pode derivar de tolerância com inflação fora da meta nos últimos anos.

Fernando Dantas

24 de junho de 2015 | 10h53

Em rápida entrevista recente à imprensa na sexta-feira (12/6), o diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC), Tony Volpon, mencionou a inércia inflacionária como um ponto relevante na discussão sobre o cumprimento do objetivo do Copom de levar o IPCA ao centro da meta, de 4,5%, em 2016. Volpon acrescentou esta é “uma discussão que a gente está tendo com o mercado”.

O economista e consultor Alexandre Schwartsman, que já ocupou no BC a mesma diretoria atual de Volpon, vai divulgar em breve um relatório em que busca medir a inércia inflacionária desde praticamente o início do sistema de metas de inflação, em 1999.

Schwartsman dividiu o período, desde aquele fato até nossos dias, em três subperíodos: 2000 a 2004, 2005 a 2009 e 2010 até o início de 2015. Pelas suas contas, houve uma queda da persistência inflacionária entre o primeiro e o segundo subperíodos – ele chama este último de a fase da consolidação do regime de metas. Por outro lado, a inércia voltou a subir no terceiro período, que compreende na sua maior parte a etapa em que o Banco Central foi presidido por Alexandre Tombini (a partir de 2011).

O consultor acha que não seria inteligente supor que a mudança na inércia aconteceu porque as pessoas de uma hora para a outra resolveram se apegar mais à inflação passada, sem nenhuma razão específica. Assim, ele aventa a hipótese de que o fato de que, na sua visão, o BC comandado por Tombini tenha deixado de perseguir o centro da meta tenha sido a causa do aumento da persistência inflacionária.

O seu raciocínio é relativamente simples. Se, em determinado ano, a inflação desviou para cima do centro da meta, a expectativa dos agentes econômicos é de que o BC aja por meio da política monetária para trazê-la de volta. Se ele procede dessa forma com o horizonte do próprio ano em curso, é provável que as expectativas dos agentes confluam para a meta, e não para a inflação passada.

Supondo, porém, que o BC trabalhe com um horizonte de dois anos, Schwartsman avalia que um bom “chute” sobre a inflação seria uma média entre a inflação do ano anterior e a meta. Neste caso, o peso da meta seria de 50% e o da inflação passada, também de 50%. Uma convergência em três anos aumentaria o peso da inflação passada para 2/3; em quatro anos, para 75%, e assim por diante. Em outras palavras, quanto maior o período de convergência, mais pesa a inflação passada, o que aumenta a inércia.

A inércia se manifesta em frentes como o reajuste do salário mínimo, as negociações salariais e os preços de vários tipos de serviços, incluindo aluguéis. Schwartsman ressalva que no seu estudo “curiosamente achamos menos evidência de inércia nos serviços do que no resto (do índice)”, e diz que vai investigar melhor este fato.

Ele pondera ainda que evidentemente o enfraquecimento do mercado de trabalho fragiliza a mão dos trabalhadores nas negociações salariais, mas “tudo o mais constante, com o aumento da inércia, é preciso mais recessão para reduzir a inflação”.

Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, considera que a alta inflação de 2015 (cujos prognósticos já estão pouco abaixo de 9%) reforça o problema da inércia, mas isto é compensado pelo “hiato do produto amplamente negativo, que provoca piora no mercado de trabalho e faz com que os reajustes nominais de salário não tenham conseguido superar a inflação”. Ele menciona as principais pesquisas do mercado de trabalho – PME, Pnad Contínua e Caged – como evidências de que isso já está acontecendo.

“É preciso considerar o conjunto da obra – há um problema de inércia, mas temos um hiato de produto como não se via desde 2009”, diz Borges.

Ele nota ainda que há evidências de que setores como a construção civil, principalmente, e o comércio estão trocando trabalhadores com salários mais altos por outros contratados por menos. “Não construção civil já há um excedente (de trabalhadores) de reserva bem grande”, afirma.

A LCA projeta IPCA de 5,2% em 2016 e de 8,8% em 2015. Neste último caso, com os administrados subindo 15%. Em 2016, porém, os administrados devem cair para algo entre 4% a 5%, na previsão de Borges, exatamente porque já foram fortemente corrigidos em 2015. Já Schwartsman concorda que os administrados vão desacelerar em 2016, mas não acha 100% seguro que esta ajuda será tão considerável. Ele lembra que pode haver aumentos de gasolina e que a questão das tarifas elétricas pode não estar totalmente equacionada, o que cria o risco de que os administrados acabem subindo mais do que as projeções otimistas. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada em 16/6/15, terça-feira.

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